segunda-feira, 27 de junho de 2022

Quanto Vale uma Vida? Por Alexandre Júnior.





         O capitalismo institui, a partir de suas estruturas cruéis e nefastas, o valor à vida humana. Desta forma, o Estado distribui seu capital e serviços a partir da valia que ele dá aos corpos beneficiados pelos mesmos. Ou seja: o valor dessa mesma vida depende da representatividade social a que pertence este sujeito!

         Entendemos facilmente por que o Brasil; é o 4° país no planeta que mais mata ativistas ambientais.

         Antes de qualquer altercação secundária: Quem matou e quem mandou matar Marielle Franco e seu motorista Anderson Gomes? Quem matou e quem mandou matar o indigenista Bruno Pereira e o jornalista Dom Phillips?

         Na esteira do capitalismo, o neoliberalismo, sua versão mais excludente, comunga com as práticas fascistas e com a produção da chamada necropolítica. Não desejam a vida ou o respeito à natureza, mas sim o lucro e o poder acima de tudo e de todos!

         Daí surgir a pergunta: Quanto Vale uma Vida?

         Onde estão concentrados os grandes investimentos do Governo na proteção social das pessoas? O aparelhamento do Estado visa servir a quem?

         Diante da realidade apresentada nestas reflexões iniciais, indagamos: Onde está o Movimento Espírita Brasileiro Hegemônico Federativo Institucionalizado, diante de todas estas realidades sociais aterrorizantes e perversas dos dias atuais? Em quantas notas o referido Movimento se manifestou sobre está realidade social? Qual o seu posicionamento diante deste descalabro? O silêncio e a omissão são formas de comunicar?

         Conclamamos reflexões que nos levem a entender que o espiritismo não é omisso às questões sociais de nosso tempo, bem como não é apolítico; senão vejamos o que nos fala Kardec. Comecemos com o Livro dos Médiuns (Kardec, 2017): “O Espiritismo, já o dissemos, se relaciona com todos os problemas da Humanidade. Seu campo é imenso e devemos encará-lo sobretudo quanto às suas consequências”. Ora, se o próprio Kardec fala abertamente sobre a relação do Espiritismo com todos os problemas humanos, de onde vem a negação desta realidade de uma parte muito significativa dos Espíritas brasileiros?

         Trazemos a discussão agora a partir de um artigo da Revista Espírita de Junho de 1868:

O Espiritismo conduz precisamente ao fim que se propõe todos os homens de progresso. É, pois, impossível que, mesmo sem se conhecer, eles não se encontrem em certos pontos e que, quando se conhecerem, não se deem - a mão para marchar, na mesma rota ao encontro de seus inimigos comuns: os preconceitos sociais, a rotina, o fanatismo, a intolerância e a ignorância. (Kardec, 2018),

 

Neste ponto específico, os preconceitos sociais são caracterizados por Kardec como um dos inimigos do progresso humano – compreendemos desta maneira, e por isso dizemos repetidas vezes: não haverá mundo de regeneração sem igualdade e justiça social, até vencermos estes inimigos comuns citados no texto acima.

Damos prosseguimento às nossas reflexões Kardecianas, agora usando A Gênese como base:  

 

“Com a reencarnação, desaparecem os preconceitos de raça e de casta, já que o mesmo Espírito pode renascer, rico ou pobre, grande senhor ou proletário, mestre ou subordinado, livre ou escravo, homem ou mulher. De todos os argumentos invocados contra a injustiça da servidão e da escravatura, contra a sujeição da mulher à lei do mais forte, não existe nenhum que supere em lógica, o fato material da reencarnação. Desse modo, assim como a reencarnação fundamenta numa lei da natureza o princípio da fraternidade universal, também fundamenta na mesma Lei o princípio da igualdade dos direitos sociais e, por consequência, o da liberdade. ” (Kardec, 2007)

 

            A reencarnação, aqui expressa pelo querido Professor Francês, não possui uma ideia em si mesma de criar castas e/ou justificar a opulência de uns e a total falta de outros, não valida a famigerada meritocracia, seja ela do mundo dos vivos ou do mundo dos mortos. Assim, (Júnior, 2022) nos diz: “Nesse sentido, nenhuma hegemonia cultural, econômica ou social opressora deverá encontrar a sua razão de existir na forma de se conceber a reencarnação, tendo o Espiritismo como referencial teórico”.

         Compreendemos que a partir da reencarnação em uma perspectiva Espírita, a ideia é que todos, todas e todes tenham as mesmas possibilidades, partindo o Espiritismo da visão de um ser integral, de proporcionar-lhes possibilidades para a ampla ação de vida, para que todas as suas potencialidades possam ser motivadas a serem vivenciadas e ampliadas no espiritual, no afetivo, no emocional, no material e no social.

         Assim, (Júnior, 2022), continua:

 

A reencarnação tem uma ação educativa em vez de punitiva. Divina e diametralmente oposta à demoníaca; libertadora e antagônica a qualquer tipo de postura aprisionante. Sua ação sobre nós é de possibilidades de aprendizado através de sucessivas oportunidades, nas quais vamos, por intermédio dos embates sociais, concordando e discordando, formatando-nos como cidadãos cósmicos, seres universais, criaturas divinas, constituindo-nos naquilo que somos. (Júnior, 2022),

 

            É importante posicionarmos os nossos pensamentos sobre a reencarnação, já que a mesma robustece, valida e legitima a nossa busca por igualdade e justiça social a partir da compreensão do Espiritismo.

         Damos prosseguimento às nossas digressões Kardecianas, desta vez usaremos O Livro dos Espíritos, na pergunta 806. “A desigualdade das condições sociais é uma lei natural?  Não, ela é obra do homem e não de Deus.” Compreendemos que não sendo essas desigualdades e injustiças sociais ações divinas, cabe portanto a quem as criou o dever de extirpá-las! Desta maneira, as ações de enfrentamento às causas dessa problemática precisam e devem ser amplamente combatidas – e não apenas os seus efeitos! Combater a fome é extremamente necessário e urgente. Mas perguntar e entender por que tantas pessoas passam fome é imprescindível.

         Assim vamos estabelecendo de que maneira as relações sociais vão se instituindo e como produção de políticas públicas que contemplem as diversas demandas de nosso povo são importantes, levando em consideração as especificidades construídas a partir das diferenças culturais e identitárias que nos formam!

         Ainda no Livro dos Espíritos, está a pergunta 799, com sua respectiva resposta:

 

Por que meios pode o Espiritismo contribuir para o progresso? “Ao destruir o materialismo, que é uma das chagas da sociedade, ele faz os homens compreenderem onde estão os seus verdadeiros interesses. Por não estar mais velada pela dúvida, o conhecimento da vida futura será apreendido pelo homem, que entenderá que pode assegurar o seu futuro pelo próprio presente. Ao destruir os preconceitos de seita, casta e cor, o Espiritismo ensina aos homens a grande solidariedade que deve uni-los como irmãos. ” (Kardec, 2007)

 

            Possuímos um enorme desafio, a partir do que chamaríamos de um Espiritismo espiritualista – embora pareça redundância – instituirmos a possibilidade de nos vermos irmãos, sem negar as diferenças que nos formam. O não respeito a este pensamento torna o Movimento Espírita Brasileiro Hegemônico Federativo Institucionalizado materialista, assim como nos diz Alexandre Júnior, no seu livro Espiritismo, Educação, Gênero e Sexualidades: Um Diálogo com as Questões Sociais:

 

O movimento espírita brasileiro é materialista quando valida os preconceitos, não luta contra eles de forma orgânica e não tem, por exemplo, uma campanha “oficial” contra os preconceitos. É materialista quando institui em suas relações sociais internas e externas o processo de hierarquização dos corpos, no seu “modus operandi” (Júnior, 2022)

 

            Chegamos a estas reflexões para podermos compreender um dos motivos pelos quais, segundo nossas pesquisas, o referido Movimento convive com as desigualdades e injustiças sociais e não possuí ações discursivas, pedagógicas ou práticas para lidar com as mesmas. E desta forma, torna-se incapaz de ajudar na formação de um Ser Espiritual dentro da cultura do seu tempo.

         Este silêncio promovido pelo Movimento Espírita Brasileiro Hegemônico Federativo Institucionalizado é ensurdecedor, e como vimos, não se sustenta em Kardec. Reproduz em suas práticas as normas sociais vigentes, guiada muitas vezes por um religiosismo que beira o fundamentalismo, e que por sua vez é alimentado por um conservadorismo extremo. E este processo não coaduna com as práticas do nosso guia e modelo, Jesus de Nazaré.

         Será que o Jesus dos Espíritas verdadeiramente “não comprou uma pistola, porque em sua época não existia?”, ou será que ele defende a tese de que “bandido bom é bandido morto?” Ou ainda que direitos humanos serviram para “humanos direitos?” Ou ele teve 4 filhos e no 5º “fraquejou”, daí nascendo uma mulher? Será que ele diria à mulher adúltera: “Não te estrupo por que você não merece?”.  Ou talvez: “Meus filhos não namorariam uma negra por que foram bem educados!”. Estas são falas em voga na atualidade – seriam elas relacionadas verdadeiramente com o Evangelho?

         Seria possível conjugar em uma mesma frase Lucas 10:27:  “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todas as tuas forças e de todo o teu entendimento; e: Amarás o teu próximo como a ti mesmo”, mas “bandido bom é bandido morto”?

Ou ainda consoante expresso em Mateus 25, 35:36. “Porque tive fome, e me destes de comer; tive sede, e me destes de beber; era forasteiro, e me hospedastes; estava nu, e me vestistes; enfermo, e me visitastes; preso, e fostes ver-me”, e assim “façamos arminha com as mãos” e defendamos a necropolítica, a política armamentista. Ou que ainda não nos incomodemos com os assassinatos de Chico Mendes, Irmã Dorothy Stang, Marielle Franco, Anderson Gomes, Miguel Otávio, Dandara dos Santos, Evaldo Rosa e tantas anônimas e anônimos que tombam com seus corpos transgressores sem vida, para que os “homens de bem” tenham bons sonhos!

         Precisamos construir diálogos que se sustentem teoricamente. Precisamos viver a “Religião da Intimidade”, “a Fé Raciocinada”; mas se para vivermos alguma religião precisarmos ser insensíveis às dores de almas que pensam diferentes de nós; se para reverenciar nosso deus negamos vidas, e nos fechamos ao amor pelos diferentes, há algo de errado em nossa forma de adorar!

         Nos diz Freire: “A educação é um ato de amor, por isso, um ato de coragem. Não pode temer o debate. A análise da realidade não pode fugir à discussão criadora, sob pena de ser uma farsa”.

         Nas arenas romanas, os desafios eram não abjurar a Jesus de Nazaré, e se entregar em sacrifício. As arenas do campo sócio-político-religioso vitimaram O Cristo numa crucificação infame. Já nos dilemas dos dias de hoje, na “nossa Pátria mãe gentil, Choram Marias e Clarices no solo do Brasil”, pois “num tempo, página infeliz da nossa história, passagem desbotada na memória das nossas novas gerações, dormia a nossa pátria mãe tão distraída, sem perceber que era subtraída em tenebrosas transações”.

         E nós apenas sentimos e quando nos permitem, balbuciamos baixinho, para que não nos escutem: “Como é difícil acordar calado, se na calada da noite eu me dano, quero lançar um grito desumano, que é uma maneira de ser escutado. Esse silêncio todo me atordoa. Atordoado eu permaneço atento. Na arquibancada pra qualquer momento. Ver emergir o monstro da lagoa”.

         Aludindo um refletir que seja tal qual fumaça em fresta de porta, que se apresente forte como uma esperança que faz florescer um “Esperançar”, que ame corajosamente, apesar dos reveses que fazem com que tombem os corpos que ousam amar o amor, a natureza Amazônica, e as humanidades, e que não atende aos rótulos do convencionalismo extremamente fundamentalista, tacanho, perverso e excludente!

         Nos inspiremos no amor subversivo de Jesus de Nazaré, para todas, todos e todes, e sem acepção. Aceitemos a licença poética do cancioneiro e nos permitamos compreender que segundo ele, o poeta, “o Amor é um Ato Revolucionário".

 

 

Referências Bibliográficas

 

A Gênese (Kardec, 2018) p. 58 KARDEC, Allan. A gênese. Federação Espírita André Luiz, (FEAL), 2018.

Bíblia de Estudo Perguntas e Respostas MC. São Paulo, 2016.  Lucas10:27; Mateus 25,35:36.

Espiritismo, Educação, Gênero e Sexualidades. Um diálogo com as Questões Sociais. JÚNIOR, Alexandre,  Recife: CBA Editora, 2022. 

O livro dos espíritos: princípios da doutrina espírita. Livraria Allan Kardec Editora, 2007.

O Livro dos Médiuns (Kardec, 2017). KARDEC, Allan. O livro dos médiuns, EDICEL, 2017

Pedagogia da Autonomia. (Freire, 2011) FREIRE, Paulo. São Paulo: Editora Paz e Ter[1]ra, 2011.

Revista Espírita – junho de 1868, (Kardec, 2018),  KARDEC, A. Revista Espírita. Tradução de Julio Abreu Filho. Livraria Allan Kardec Editora, (LAKE). 2018.

 

Músicas

O Bêbado e o Equilibrista. Letra de Aldir Blanc e João Bosco.

Bastidores. Letra de Chico Buarque.

Cálice. Letra de Chico Buarque.

O Amor é Um Ato Revolucionário. Letra de Chico César.

segunda-feira, 9 de maio de 2022

ESPÍRITAS, AMAI-VOS, INSTRUÍ-VOS E POLITIZAI-VOS!


Por: Rodrigo Sales
 


Ao longo das últimas décadas circulou entre os espíritas brasileiros a ideia de que o Espiritismo é uma doutrina apolítica para responder ao questionamento de que os assuntos sobre Espiritismo e Política não poderiam se misturar, dialogar ou provocar compromissos de atuação na sociedade através dos movimentos sociais e da luta pela garantia e manutenção de direitos advindos desses mesmos movimentos.

O fazer espírita, segundo os que defendem um Espiritismo apolítico, deveria ser restrito ao estudo das obras de Allan Kardec e o centro espírita se tornaria o lugar mais adequado para construir o chamado “trabalho espírita” que também passou a ser entendido através da prática de palestras públicas com um mesa na tribuna em que um único palestrante fala por quase uma hora, aplicação de passes e fluidoterapia, seguido da água fluidificada, atendimento fraterno, tratamento espiritual da obsessão, evangelização infantojuvenil, distribuição de sopa e cestas básicas, livraria e biblioteca junto com bazar e cantina de lanches, campanha do quilo e a chamada divulgação doutrinária com a publicação de textos, vídeos e artigos em jornais e redes sociais falando sobre o Espiritismo e o evangelho de Jesus.

Nessa seara de afazeres espíritas, recheada de muitos trabalhos, falar de Política e seus desdobramentos nas questões sociais tornou-se algo proibido, evitado e silenciado ao ponto de ser enquadrado como assunto antidoutrinário.

O espírita encarnado ou desencarnado que defende e divulga a ideia de que o Espiritismo é apolítico e ajuda a difundir o pensamento de que falar de Política é algo antidoutrinário, evidencia o quanto que desconhece sobre o que de fato é o fazer espírita a partir da noção fundamental de Espiritismo apresentada por Allan Kardec. E a razão desse desconhecimento se dá pelo fato de não saber o que é algo “apolítico” e “antidoutrinário” e ainda correlacionar essas palavras com um sentimento de advertência de modo a evitar o diálogo sobre Espiritismo e Política.

Apolítico, segundo o dicionário, é tudo aquilo que não é político, que não apresenta significado político, é aquilo ou aquele que não se interessa por política ou por ela tem aversão. Já antidoutrinário seria significado também pelo dicionário como tudo aquilo que está em desacordo com uma certa doutrina. Além disso, o próprio conceito de Política precisa também ser esclarecido de modo a espantar o fantasma que essa palavra representa.

No imaginário de muitos espíritas encarnados e desencarnados, a Política é entendida como sinônimo de politicagem o que acaba trazendo para essa palavra o sentido de algo sujo, errado, imoral, não ético ou que vibratoriamente não é bom para as energias da casa espírita e nem para a mente dos ditos médiuns que podem se desequilibrar e serem assediados por maus Espíritos que encontrariam brechas se assuntos ligados à Política fossem trazidos e abordados pelo Espiritismo. Quando, em verdade, a Política é uma ciência da sociedade, fruto de saberes humanos que foram desenvolvidos e aprimorados ao longo da História, acompanhando a evolução das sociedades e da própria compreensão dos seres humanos sobre as necessidades que possuem nos grupos sociais em que estão inseridos e que compõem as nações ao redor de todo o planeta Terra.

Política é uma arte de pensar e estruturar as instituições oferecedoras de serviços que objetivam atender as demandas e necessidades das pessoas que se relacionam socialmente. Em outras palavras, a Política é a expressão pensada, falada, estruturada, registrada e sentida dos Espíritos encarnados e desencarnados ao longo da História, nas diversas sociedades com seus aspectos culturais característicos. É, portanto, fruto das escolhas dos Espíritos encarnados com todas as suas boas ou más influências por parte dos Espíritos desencarnados.

Devidamente conceituadas estas palavras, façamos agora o exercício de questionar se de fato o Espiritismo não pode dialogar com a Ciência Política, como muitos defendem. Consultando o próprio Kardec, como pedem aqueles que defendem um Espiritismo apolítico, questiona-se como podemos estudar a pergunta 573 de O Livro dos Espíritos quando Kardec busca entender em que consiste a missão dos Espíritos encarnados, cuja resposta fala sobre a instrução dos homens para auxiliar com o progresso desses e complementa falando sobre o melhoramento das instituições por meios diretos e materiais, e não vermos o conceito de Política presente?

Ainda dessa obra, como estudar em sua questão 818, que aborda a inferioridade moral da mulher em certas regiões como sendo o resultado do predomínio injusto e cruel que sobre ela assumiu o homem e também resultado das instituições sociais e do abuso da força sobre a fraqueza, e não vermos de forma clara o conceito de Política presente?  Sobretudo a Política de acolhimento e proteção às mulheres e a luta pela garantia dos direitos civis dessas mulheres de modo a tornar justa e equivalente a posição social ocupada por elas e os homens, que historicamente fizeram as leis só para si e venderam a ideia de que a mulher é o sexo frágil, sendo este último pensamento uma imensa tolice de homens moralmente pouco adiantados que formatam seus direitos através da força e da opressão.

Como estudar a questão 797, do mesmo livro, sobre a reformulação das leis da sociedade cuja resposta central passa pelo reconhecimento de que é pela força das coisas e pela influência das pessoas de bem que guiam a marcha do progresso e que são essas as responsáveis a reformular tantas leis que ainda são cruéis e injustas e que validam desigualdades e encobertam violências dos mais diversos matizes, e não vermos a flagrante presença da Política como essência do ensinamento? Ou ainda, quando vemos o conceito de que todos os Espíritos possuem fundamentalmente e primariamente o direito à vida, na pergunta 880, e não reconhecermos o compromisso político que se lança sobre os ombros dos espíritas para garantir uma vida com qualidade para mulheres, crianças, idosos, negros, indígenas, gays, lésbicas, transexuais, travestis, pobres, periféricos, suburbanos e pessoas em condição de rua e extrema miséria?

É tão nítido o potencial dialógico do Espiritismo com a arte Política e com todos os desdobramentos possíveis através das temáticas presentes na sociedade, que nem de longe, nem no pior dos pesadelos, nem na mais complexa obsessão, nem na maior obscuridade umbralina se pode admitir chamar o Espiritismo de apolítico ou que dialogar sobre Política seja considerado assunto antidoutrinário. O Espiritismo nunca foi e nunca será apolítico porque o fazer espírita é por si só um fazer político que visa atuar no mundo trazendo a perspectiva do Espírito imortal de modo a contribuir com a espiritualização dos seres humanos.

O Espiritismo almeja mudar hábitos culturalmente engessados em crenças materialistas e inaugurar uma nova fase na humanidade marcada pela renovação social em que os homens e mulheres, espiritualizados e conscientes das suas missões enquanto encarnados, assumam as instituições presentes na sociedade direcionando-as para o atendimento das demandas de um mundo que clama por justiça e igualdade social e sobretudo por amor, o mais elevado de todos os sentimentos. 

Sendo assim, conclamemos: Espíritas, amai-vos, instruí-vos e politizai-vos hoje, amanhã e sempre. Assim seja!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Referencial Bibliográfico

 

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos: princípios da doutrina espírita. Livraria Allan Kardec Editora, 2007.

 

 

 

 


sexta-feira, 22 de abril de 2022

Contribuições Para um Pensar Decolonial nos Estudos Espiritas

 



Por Lídia Pimentel


Lidia Valesca Pimentel[1]

 

Esse artigo nasceu de uma inquietação epistemológica acerca das bases da modernidade, de sua visão eurocêntrica de homem e a influencia do colonialismo no movimento espirita, desde Kardec até os dias atuais. O uso de termos como “selvagem”, “primitivo”, “superior” em vários textos Espiritas e as várias alegações de elementos racistas tem vindo à baila.   

Vivemos em um momento oportuno para introduzir uma reflexão decolonial, em meio a mudanças no movimento espirita brasileiro, com o aparecimento de coletivos progressistas trazendo a leitura critica de obras e autores esquecidos, numa dinâmica dialógica com a ciências sociais e a filosofia e os seus posicionamentos frente aos acontecimentos da atualidade.  

Para compreender a importância do pensamento decolonial é necessário, inicialmente, compreender o que significou o pensamento colonial e depois a “virada de chave”, originada, ainda no século XX, com a crise de paradigmas da modernidade e a irrupção de um pensamento decolonial, crítico do colonialismo. 

O pensamento colonial apareceu na modernidade não somente como a expansão territorial dos estados europeus, com a crise do capital, na segunda metade no sec. XIX. Se constituiu como forma ideológica de entendimento de homem como ser universal, a imagem e semelhança do europeu, com padrão de civilidade típicos da cultura ocidental, legitimados a partir de conceitos evolucionistas, em escalas de evolução social e moral, elaboradas pelos próprios colonizadores.

Os avanços da biologia com as pesquisas de Charles Darwin, com grande projeção de sua obra “A Origem das espécies em 1859”, influenciou o pensamento positivista em sua visão de sociedade, os colonizadores modernos criaram um discurso sobre O outro colonizado como inferior, legitimando a exploração, como ideia de progresso e “de missão civilizatória”. Desse modo, podemos dizer que a colonialidade não é uma questão apenas da administração das colônias, mas uma epistemologia que influenciou as ciências humanas e a filosofia, tanto no plano teórico como metodológico. 

Foi assim que o positivismo deu suporte ideológico para que essas sociedades fossem consideradas primitivas e seus povos inferiorizados, numa escala onde o Europeu foi considerado moralmente superior, excluindo o conhecimento das tradições não ocidentais, como diz Walter Mignolo:    

“Colonialidade” equivale a uma “matriz ou padrão colonial de poder”, o qual ou a qual é um complexo de relações que se esconde detrás da retórica da modernidade (o relato da salvação, progresso e felicidade) que justifica a violência da colonialidade. E descolonialidade é a resposta necessária tanto às falácias e ficções das promessas de progresso e desenvolvimento que a modernidade contempla, como à violência da colonialidade. (MIGNOLO, 2017 p. 13)

 

A agenda colonial produz a descredibilidade de inúmeras formas de existência e de saber, como também produz a morte, seja ela física, através do extermínio, ou simbólica, através do desvio existencial (SIMAS e RUFINO, 2018 ) Nasce de um discurso sobre o outro com subalterno e inferior. Isso não dá para aceitar!    

O pensamento pós colonial é uma tendencia epistemológica nas ciências sociais desde a emancipação das coloniais africanas que propõe uma reflexão crítica das epistemologias modernas, que propuseram uma racionalidade ocidental, como modelo hegemônico de cultura e razão.  Como diz Santos (2014) Uma “epistemologia do sul”. Um modo de pensar que leva em consideração os saberes locais, numa metáfora do sul não como espaço geográfico, mas como modelo contra hegemônico do pensamento norte global.  Aceitação de outras cosmovisões, como modelos intuitivos de pensar, representar e viver no mundo, como as dos indígenas brasileiros, a de tribos africanas, os povos da índia entre tantos outros na vastidão de manifestação da cultura humana.   

Alan Kardec, assim como outros pensadores espiritas do seu tempo, são herdeiros de uma filosofia moderna colonial e não teria como ser diferente, dado o seu contexto.  O modelo de ciência no tempo de Kardec tentava emancipar-se do tradicionalismo e dogmatismo medieval e seus valores arcaicos. O Espiritismo de Kardec, no plano filosófico, recebeu influência do iluminismo e sua visão de racionalidade universal. Numa perspectiva cientifica, foi influenciada pelas ciências naturais e os nascentes estudos sobre a psiquismo humano.

No entanto, podemos afirmar que Alan Kardec ultrapassou a ciência do seu tempo, trazendo o “paradigma do espirito” e uma crítica as ciências a quem chamou de materialistas, por reduzir o conhecimento apenas ao que pode ser validado a partir de experimentos comprovados materialmente. O pensamento espirita vai costurar elementos complexos advindos das respostas dos Espíritos, em sua maioria cristãos, com a interpretação de Kardec e seu próprio entendimento, numa perspectiva dialógica entre os conhecimentos de seu tempo e os valores de uma ética universal dada pelos espíritos.   

A diferenças entre os povos para os franceses era chamada de civilizacion, como o conjunto dos aspectos da vida material e cultural de um grupo social em qualquer estágio de seu desenvolvimento.  Para os Espíritos em resposta a Kardec

A civilização tem os seus graus, como todas as coisas. Uma civilização incompleta é um estado de transição que engendra males especiais, desconhecidos no estado primitivo, mas nem por isso deixa de constituir um progresso natural, necessário, que leva consigo mesmo o remédio para aqueles males. A medida que a civilização se aperfeiçoa, vai fazendo cessar alguns dos males que engendrou, e esses males desaparecerão com o progresso moral. (O livro dos Espiritos questão 793)

 

Os termos primitivo, bem como, selvagem, inferior ao se referir aos povos “não civilizados” ou de uma civilidade “incompleta” está alçada numa visão de moral. Seria essa a mesma moral pensada pelo colonizador?

Os Espíritos esclarecem:

Vós a reconhecereis pelo desenvolvimento moral. Acreditais estar muito adiantados por terdes feito grandes descobertas e invenções maravilhosas; porque estais melhor instalados e melhor vestidos que os vossos selvagens; mas só tereis verdadeiramente o direito de vos dizer civilizados quando houveres banido de vossa sociedade os vícios que a desonram e quando passardes a viver como irmãos, praticando a caridade cristã. Até esse momento não sereis mais do que povos esclarecidos, só tendo percorrido a primeira fase da civilização.

 

Kardec escreve ainda em uma nota essa questão, enfatizando a dimensão ético-moral:

De dois povos que tenham chegado ao ápice da escala social, só poderá dizer-se o mais civilizado, na verdadeira acepção do termo, aquele em que se encontre menos egoísmo, cupidez e orgulho; em que os costumes sejam mais intelectuais e morais do que materiais; em que a inteligência possa desenvolver-se com mais liberdade; em que exista mais bondade, boa-fé, benevolência e generosidade recíprocas; em que os preconceitos de casta e de nascimento sejam menos enraizados, porque esses pré-juízos são incompatíveis com o verdadeiro amor do próximo; em que as leis não consagrem nenhum privilégio e sejam as mesmas para o último como para o primeiro; em que a justiça se exerça com o mínimo de parcialidade; em que o fraco sempre encontre apoio contra o forte; em que a vida do homem, suas crenças e suas opiniões sejam melhor respeitadas; em que haja menos desgraçados; e, por fim, em que todos os homens de boa vontade estejam sempre seguros de não lhes faltar o necessário

 

Ainda na mesma questão, uma nota de Herculano Pires, tradutor dessa edição:

 Será essa a civilização cristã que o Espiritismo estabelecerá na Terra. Como se vê pelas explicações dos Espíritos e os comentários de Kardec, a civilização incompleta em que vivemos é apenas uma fase de transição entre o mundo pagão da Antiguidade e o mundo cristão do Futuro. Nos costumes, na legislação, na religião, na prática dos cultos religiosos vemos a mistura constante dos elementos do paganismo com os princípios renovadores do Cristianismo. Cabe ao Espiritismo a missão de remover esses elementos pagãos para fazer brilhar o espírito cristão em toda a sua pureza.

 

O que deduzir do significado de “costumes mais intelectuais do que materiais”? Como interpretar os dizeres de Herculano Pires? O que significa remover os elementos do paganismo?  Que elementos são esses? O pensamento de Pires soa flagrantemente colonialista, de uma visão de cristianismo como religião superior. Isso deve ser assim?

Admitir a influência de uma visão colonialista nessa interpretação é fundamental para poder ultrapassá-la. Se considerarmos que a ideia de costume e leis são próprias de cada cultura e tem manifestações históricas próprias, cada civilização teve o seu próprio processo civilizador e não poderíamos classificar como superior ou inferior, mas como participe de seu próprio processo de mudança, rumo a uma ideia de progresso moral intrínseca ao próprio conceito.   Problematizar a ideia de uma escala civilizatória para admitir que o processo civilizatório é  necessário para ultrapassar o orgulho do ocidente, sua noção de desenvolvimento material, para adentrar as noções princípios ético-morais,  como esclareceram os espíritos a Kardec.

As Ciências Sociais, nascente no mesmo tempo de Kardec, nasceu sob os auspicio de uma epistemologia colonialista e com forte influência do darwinismo social. Todavia, as Ciências Sociais realizaram sua própria critica, se abriram para as perspectivas pós coloniais. Assim pode ser os estudos espiritas? Essa é a questão posta, as quais não é mais possível jogar para baixo do tapete, mas encará-la como dilema epistemológico, que só poderá ser resolvido com a superação dogmáticas das obras básicas.

A decolonialidade é como uma chave que pode abrir as portas de uma auto reflexão do movimento espirita e ajudar os seus estudiosos a revisitar criticamente a influência do paradigma racionalista da ciência moderna e do positivismo, método hegemônico na ciência do Sec. XIX, para admitir que o Espiritismo é um conhecimento produzido a partir de fontes europeias, com a influência de espíritos cristãos, com os valores ocidentais sobre homem, Deus e sociedade.  

Se no passado o Espiritismo acompanhou as ciências do seu tempo, nos dias atuais, pode abrir-se aos dilemas do sec. XXI, continuar a produção do saber espirita, iniciada por Kardec, entender as emergências do novo tempo, seguindo os passos que o próprio mestre de Lion ensinou, alinhar a Ciência Espirita ás dinâmicas da própria ciência.

A superação da mentalidade colonial abre as portas do pensamento para o encontro de interculturalidade e para o diálogo interreligioso que rejeita o discurso sobre o outro, valoriza a auto determinação identitária. Proporciona um encontro entre sujeitos, suas diferenças, tendo em vista a diversidade do mundo.

A decolonialidade nos leva a compreensão de uma humanidade ampla, com experiências reencarnatórias plurais, vividas em corpos sociais diversos, com visões de mundo distintos e multiculturais. No plano da mediunidade, admite a importância de outras narrativas de espíritos que viveram realidades não europeias e não cristãs, admitindo como espiritualidade válida na grande rede de interconexão existente. Alcançar uma ideia de universalidade constituída por culturas diferentes, respeitadas em suas manifestações. 

A decolonialidade pode lançar luz as práticas espiritas a partir do pressuposto que a ação e o pensamento perfazem o sentido do fazer espirita conjuntamente.  A ação espirita deve ser manifestada com as bases ética do bem comum, do respeito as diferenças dos povos, da democracia, da tolerância e da cultura de paz entre as nações, sem superioridade econômica e ou cultural, estabelecendo a cooperação mutua. Os povos originários, por exemplo, têm muito a ensinar aos povos ocidentais

Um fazer que propõe uma pedagogia, ao invés de uma evangelização que cria a caricatura do “evangelizando”, depositário de um conhecimento, desconsiderando os aprendizados já existentes e a realidade em que vivem. Sujeitos ativos da aprendizagem, com sua bagagem cultura local e cosmologia própria. Uma pedagogia da autonomia, como ensina Paulo Freire, com os valores da emancipação, da troca de saberes e uma construção partilhada do mundo.

Uma ação fraterna e solidária que supere as práticas assistencialistas que objetifica as pessoas. Percebe o outro não como um “necessitado” ou “assistido”, mas como um sujeito de direitos.  Cidadania ativa, transformadora da sociedade rumo a justiça social e a igualdade entre todos. Uma espiritualidade viva que integre o sentir, o pensar e o fazer com bases éticas do cuidado e do bem comum.    

Por fim, é preciso esclarecer que o pensamento decolonial não nos dá um roteiro pronto para os estudos espiritas, mas aponta para as bases epistemológicas, um jeito de pensar que supere o poder de um conhecimento sobre o outro, supremacia religiosa, filosófica ou cientifica, que possa engendrar como únicos ou verdadeiros.

 

Referencias:

KARDEC, Alan. O livro dos Espiritos. Tradução de José Herculano Pires. Lake: São Paulo, 2013.

MINOLO, Walter D. Colonialidade o lado mais obscuro da modernidade. Revista brasileira de ciências sociais - vol. 32 n° 94 – Tradução de Marco Oliveira. 2017.

SIMAS, Luiz Antônio; RUFINO, Luiz. As ciências encantadas da macumba. Mórula: Rio de Janeiro, 2018. 

SANTOS, Boaventura de Sousa, MENEZES, Maria Paula. Epistemologias do Sul. Edições Elmedina, Coimbra, 2009.

 

 

 

 



[1] Doutora em Sociologia. Professora Universitária. Espirita, membro do Coletivo Girassois – Espirita pelo Bem Comum.

quarta-feira, 13 de abril de 2022

Política e Coletividade como Caminhos do Progresso



Por: Luiz Gustavo


Reconhecer o pensamento político da doutrina espírita é essencial para o espírita se posicionar e atuar em sociedade de modo coerente com sua crença. Kardec escrevia:


O Espiritismo ..., tocando a todos os ramos da economia social, às quais presta o apoio de suas próprias descobertas, assimilará sempre todas as doutrinas progressivas, de qualquer ordem que sejam. (A Gênese, cap. I, nº 55.)

[Proceder a] uma comunidade de ideias em moral, em política, e sobretudo em religião. Tal será a obra da filosofia nova, o Espiritismo, que vos ensinamos hoje. (Revista Espírita, nov. 1862, “Da origem da linguagem”.)

E Léon Denis nos deixou esta definição clara: “O Espiritismo é, ao mesmo tempo, uma ciência positiva, uma filosofia, uma doutrina social”. (Síntese espiritualista doutrinal e prática, nº 89.)

Infelizmente, muitos adeptos desavisados, ou desviados por orientações alheias aos fundamentos doutrinários, rejeitam pensar a partir do Espiritismo sobre ideias “políticas” ou de “economia social”, que tocam à doutrina, como diz Kardec. Pior, rechaçam com veemência aqueles que as abordam, tachando-os injustamente de “materialistas”... Isso se explica por uma reflexão de séculos. Desde que há injustiça na sociedade, que há “forte” e “fraco” (Allan Kardec, Livro dos Espíritos, nº 781), “exploradores” e “explorados” (Allan Kardec, Viagem espírita em 1862, Discursos, nº III, § 2), isto é, a chama “dialética senhor-escravo”, surge uma mentalidade apropriada aos dominados, como explicava o filósofo Hegel:


O “escravo” [isto é, o dominado] encontra “ideologias escravas” que justificam sua posição, incluindo o estoicismo (na qual ele rejeita a liberdade externa em troca da mental), o ceticismo (na qual ele duvida do valor da liberdade externa) e a consciência infeliz (na qual ele encontra a religião e escapa, só que em outro mundo). Hegel detectava essa relação “senhor-escravo” [dominante-dominado] em diversos lugares – nas guerras entre estados mais fortes e mais fracos, e nos conflitos entre classes sociais e outros grupos. (Paul Kelly et al., O livro da política, cap. “Georg Hegel”, p. 159.)

É fenômeno frequente e antigo na história, como se vê (desde o período helenístico), a criação de discursos conformadores, apassivadores, em religiões e filosofias. Os antigos chineses e indianos aceitavam a dominação dinástica, numa sociedade de castas, valendo-se da religião hindu, reencarnacionista; com ela, procuravam abster-se da “liberdade externa”, social, buscando a “liberdade íntima”, a realização do “Eu interior”. A fuga da atuação social transformadora atingiu parte do pensamento grego antigo, no estoicismo e no cinismo, assim também do romano. Na Idade Média, na Europa, a sociedade feudal criou a mentalidade monástica, praticamente ascética. No século XV, o capitalismo nascente encontrou grande respaldo à dominação no protestantismo, quando as igrejas reformadas transformaram a mensagem cristã em ideologia conservadora, conformadora do trabalhador às novas formas de exploração, tendo em vista a liberdade no “outro mundo”, como diz Hegel.

A “ideologia escrava” assume diversas formas e sempre apresenta caráter fortemente individualista e conservador, pois ela é precisamente a maneira como o dominado se exime da luta por sua liberdade. Luta que, levada a cabo, promoveria o progresso[1]. Assim, as “ideologias escravas”, conservadoras e individualistas que são, sempre se opõem às ideias sociais progressistas.

E entre os espíritas, houve exceção a isso? De maneira alguma. A doutrina espírita em si, como a de Jesus e dos profetas antigos, como ainda a filosofia platônica, é eminentemente progressista, propondo grandes melhorias sociais e claros posicionamentos políticos. Mas a dominação social cria uma mentalidade apassivadora, uma “ideologia escrava” também afeita aos espíritas. E encontrou-se para isso um respaldo no chamado roustainguismo (ou “rustenismo”, como escreve Sérgio Aleixo), de J. B. Roustaing, primeiro cismático espírita, cuja doutrina, diversa daquela trazida por Kardec, fazia aceitar cegamente os ditados mediúnicos e rechaçava a realidade material como imundície. Esse viés ganhou vulto no movimento espírita e serviu para que inúmeros livros mediúnicos, sem controle nem coerência doutrinária, formassem, ao longo de décadas, a mentalidade apassivadora do movimento espírita hegemônico atual: aceitação das verdades reveladas sem exame e rejeição do pensamento social. Isso fez com que se recortassem, das obras espíritas fundantes ou clássicas – de Kardec a Denis, passando por Lachâtre e Mariño –, o que se referisse ao pensamento político ou social espírita[2]. A regra é: nada de política nos meios espíritas. Só iluminação da alma, pelo sentimento e pensamento, no oásis de indiferentismo da chamada “reforma íntima”. A divulgação e o estudo dos assuntos sociais pelos espíritas – consequentemente, sua participação política – foram substituídos por pregações emocionais, enlevadas e motivacionais, características da mentalidade escrava que permeia toda a história e desnatura as doutrinas progressistas. Mensagens de conformação ao sofrimento, de culpabilização, de medo e de consolação fora deste mundo dão o tom para a “moral” do espírita, bem recheadas de estorietas e “casos” romanceados, que supostamente mostram a lei divina chancelando tal comportamento... Os espíritas, portanto, não ficaram imunes à “ideologia escrava” apontada por Hegel.

Porém, Kardec e muitos espíritas pioneiros perspicazes identificavam esse problema já em seu tempo. Vemos uma excelente denúncia desse modo de pensar inócuo, dessa ideologia escrava – que tomava muitos meios religiosos e filosóficos do século XVIII, mas que os espíritas não encampavam ainda –, neste trecho da fala consciente do dirigente do grupo de operários espíritas, Sr. Desqueyroux, publicado por Kardec:


É preciso confessá-lo, há momentos na vida em que a razão poderia talvez nos sustentar, mas há outros em que se tem necessidade de toda a fé que dá o Espiritismo para não sucumbir. Em vão os filósofos nos vêm pregar uma firmeza estoica; enunciar-nos suas pomposas máximas; dizer-nos que o sábio não é abalado por nada, que o homem é feito para se possuir a si mesmo e dominar os acontecimentos da vida; enfadonhas consolações! Longe de abrandar minha dor, vós a acidificais; em todas as vossas palavras, não encontramos senão vazio e secura. (...) Sim, nosso mestre [Allan Kardec]; continua tua augusta missão; continua a nos mostrar essa ciência que vos é ditada pela bondade divina; que faz nossa consolação durante esta vida, e que será o sólido pensamento que nos firmará no momento da morte. Recebe, caro mestre, essas poucas palavras saídas do coração de teus filhos, pois és nosso pai de todos; o pai da classe laboriosa e dos aflitos. (Allan Kardec, Revista Espírita, nov. 1861, “Banquete – Discurso do Sr. Desqueyroux, mecânico, em nome do grupo dos operários”.)

Palestras e oradores espíritas “emocionantes” e preocupados apenas com o íntimo, hoje, cairiam sob a mesma crítica. Em vista do quanto se disse, e criticando os rumos ideológicos conservadores, intimistas e fugitivos da política que têm tomado o movimento espírita hegemônico, o filósofo espírita brasileiro J. Herculano Pires afirma, categórico:


Criaríamos uma ilusão anti-espírita se acreditássemos na possibilidade dessa abstenção política, alvitrada por alguns confrades, em diversas ocasiões. (O sentido da vida, cap. “Sociologia espírita”, p. 78.)

Diante de tal cenário, cabe ao espírita não mais adotar essa atitude frontalmente anti-espírita, não mais acolher essa ilusão, essa ideologia escrava conservadora apartada dos fundamentos doutrinários.

Por exemplo. A preservação ambiental e a suficiência de recursos naturais para suprir a necessidade de todos é tema tratado na doutrina:


Por que a terra não produz sempre bastante para fornecer o necessário ao homem? “É que o homem a negligencia, o ingrato! É, no entanto, uma excelente mãe. Frequentemente também, ele acusa a natureza do que só é o feito de sua imperícia ou de sua imprevidência. A terra produziria sempre o necessário se o homem soubesse se contentar. Se ela não basta a todas as necessidades, é que o homem emprega no supérfluo o que poderia ser dado ao necessário. (...) Em verdade vos digo, não é a natureza que é imprevidente, é o homem que não sabe se regrar.” (Allan Kardec, Livro dos Espíritos, nº 705.)

Eis a resposta à falácia da escassez econômica, que só pode existir em função do desregramento humano.

Também vemos a produção de bens e sua distribuição, numa crítica da organização social, ser tratada nos textos doutrinários:


Os meios de existência fazem frequentemente falta a certos indivíduos, mesmo no meio da abundância que os cerca; a que devem atribuir isso? “Ao egoísmo dos homens, que não fazem sempre o que devem; em seguida, e o mais frequentemente, a eles mesmos.” (...) Para todo mundo há lugar ao sol, mas é com a condição de aí tomar o seu, e não o dos outros. A natureza não poderia ser responsável pelos vícios da organização social e pelas consequências da ambição e do amor-próprio. (Allan Kardec, Livro dos Espíritos, nº 707.)

Sem dúvida, atribuir a Deus, ao “carma” ou à natureza o que é problema da má organização social é próprio da ideologia escrava, que teima em não enxergar na injustiça, na opressão econômica e nos desvios morais tornados sistêmicos a causa imediata, direta e atual da desigualdade, da pobreza e da maior parte das dores do mundo[3]. Como falamos no início, a doutrina expõe abertamente o problema político, econômico, social e moral, permitindo que nos movamos em direção à sua solução coletivamente, como manda a lei do progresso[4]. O mundo há de se regenerar, o reino de Deus há de vir sobre a Terra, mas com a condição de que deixemos a indiferença[5] individualista conservadora e passemos a caminhar como o ser coletivo que somos[6].

Para isso, é imprescindível resgatar a essência progressista da doutrina, a mobilização que ela solicita a todos, de modo a estudar outros tantos problemas de ordem social, econômica e política à sua luz e nos colocarmos em movimento transformador. Passemos adiantes dessas ideologias escravas, imobilizadoras, enfadonhas, apassivadoras, baseadas no rustenismo e contidas nas obras mediúnicas sem exame, e tornemos às fontes sustentadoras da consciência social do Espírito encarnado na Terra, isto é, às obras espíritas fundamentais (Kardec) e filosóficas clássicas (Denis, Mariño, Lachâtre, Herculano Pires, Mariotti, etc.). A fim de que, com resultado de nossas práticas, o mundo seja não apenas regenerado pela nossa ação, mas verdadeiramente regenerador dos Espíritos que nele se encarnem[7].

 

Referências bibliográficas

ALEIXO, Sérgio F. O primado de Kardec: metodologia espírita e cisma rustenista. Rio de Janeiro: ADE-RJ, 2011.

DENIS, Léon. Síntese espiritualista doutrinal e prática (1920). Trad. Luiz Gustavo Oliveira dos Santos. Limeira, SP: Editora do Conhecimento, 2021.

DENIS, Léon. Socialismo e espiritismo (1924). Trad. Luiz Gustavo Oliveira dos Santos. Limeira, SP: Editora do Conhecimento, 2018.

KARDEC, Allan. Le Livre des Esprits: philosophie spiritualiste [O Livro dos Espíritos: filosofia espiritualista]. 17.ed. Paris: Didier et Cie., 1869.

KARDEC, Allan. Revue Spirite: journal d’études psychologiques [Revista Espírita: jornal de estudos psicológicos]. 12 vol. Paris: Bureau Rue Sainte-Anne, 1858 – Société Anonyme, 1869.

KARDEC, Allan. Voyage Spirite en 1862 [Viagem espírita em 1862]. Paris: Ledoyen; Bureu de La Revue Spirite, 1862.

KELLY, Paul [et al]. O livro da política. Trad. Rafael Longo. São Paulo: Globo, 2013.

LACHÂTRE, Maurice. O espiritismo, uma nova filosofia (1880). Trad. Irene Goodjes. Bragança Paulista, SP: Lachâtre, 2014.

MARIÑO, Cosme. Conceito espírita do socialismo (1913). Trad. Luiz Gustavo Oliveira dos Santos. Limeira, SP: Editora do Conhecimento, 2022.

MARIOTTI, Humberto. O homem e a sociedade numa nova civilização: do materialismo histórico a uma dialética do espírito. Trad. J. L. Ovando. Prefácio de J. Herculano Pires. São Paulo: Edicel, 1967.

PIRES, J. Herculano. O reino. 5.ed. São Paulo: Paideia, 2002.

PIRES, J. Herculano. O sentido da vida. São Paulo: Paideia, 2005.

SANTOS, Luiz Gustavo O dos. O suposto “alerta de Kardec sobre política” e a repulsa à política no movimento espírita. Disponível em: <http://tiny.cc/6ggqu>. Publicado em: 18 mar. 2022. Acesso em: 07 abr. 2022.

 



[1] Entretanto, encontrareis ainda entraves em vossas tentativas para chegar à melhoria social. É que não se chega jamais ao resultado sem que a luta venha afirmar os esforços. (Allan Kardec, Revista Espírita, mar. 1868, Instruções dos Espíritos, “A regeneração”.)

[2] Para maiores desenvolvimentos sobre a repulsa do movimento espírita hegemônico à política e o suposto “alerta” de Kardec sobre política, há um texto meu disponível no link: <http://tiny.cc/6ggquz>.

[3] A desigualdade das condições sociais é uma lei natural? “Não, ela é obra do homem e não de Deus. ... Essa desigualdade desaparecerá juntamente com a predominância do orgulho e do egoísmo.” (Allan Kardec, Livro dos Espíritos, nº 806.)

[4] Em que consiste a missão dos Espíritos encarnados? “Instruir os homens, ajudar em seu avanço; melhorar suas instituições por meios diretos e materiais.” (Allan Kardec, Livro dos Espíritos, nº 573.)

[5] Ó homens! Refleti que depende de vós apressar o reino de Deus sobre a Terra ou afastá-lo; que sois responsáveis uns pelos outros; que, melhorando-vos, trabalhais para a regeneração da humanidade; a tarefa é grande; a responsabilidade pesa sobre cada um, e ninguém pode se recusar. (Allan Kardec, Revista Espírita, dez. 1859, “Comunicações externas”.)

[6] O homem não é um ser isolado, é um ser coletivo. O homem é solidário do homem. É em vão que ele procura o complemento do seu ser, quer dizer, a felicidade em si mesmo ou no que o rodeia isoladamente: ele não pode encontrá-la senão no homem ou na humanidade. Não fazeis, portanto, nada para ser pessoalmente felizes, enquanto a infelicidade de um membro da humanidade, de uma parte de vós mesmos, puder vos afligir. (Allan Kardec, Revista Espírita, nov. 1866, “A solidariedade”.)

[7] Que o princípio da caridade e da fraternidade seja a base das instituições sociais, das relações legais de povo a povo e de homem a homem, e o homem pensará menos em sua pessoa quando vir que outros nele pensaram; ele sofrerá a influência moralizadora do exemplo e do contato. (Allan Kardec, Livro dos Espíritos, nº 917.)

Não há colônias espirituais, segundo a codificação

Muito se trata do que se passa nas chamadas “colônias” espirituais, no Movimento Espírita Brasileiro hegemônico, ou de como se vai para lá, ...