segunda-feira, 9 de maio de 2022

ESPÍRITAS, AMAI-VOS, INSTRUÍ-VOS E POLITIZAI-VOS!


Por: Rodrigo Sales
 


Ao longo das últimas décadas circulou entre os espíritas brasileiros a ideia de que o Espiritismo é uma doutrina apolítica para responder ao questionamento de que os assuntos sobre Espiritismo e Política não poderiam se misturar, dialogar ou provocar compromissos de atuação na sociedade através dos movimentos sociais e da luta pela garantia e manutenção de direitos advindos desses mesmos movimentos.

O fazer espírita, segundo os que defendem um Espiritismo apolítico, deveria ser restrito ao estudo das obras de Allan Kardec e o centro espírita se tornaria o lugar mais adequado para construir o chamado “trabalho espírita” que também passou a ser entendido através da prática de palestras públicas com um mesa na tribuna em que um único palestrante fala por quase uma hora, aplicação de passes e fluidoterapia, seguido da água fluidificada, atendimento fraterno, tratamento espiritual da obsessão, evangelização infantojuvenil, distribuição de sopa e cestas básicas, livraria e biblioteca junto com bazar e cantina de lanches, campanha do quilo e a chamada divulgação doutrinária com a publicação de textos, vídeos e artigos em jornais e redes sociais falando sobre o Espiritismo e o evangelho de Jesus.

Nessa seara de afazeres espíritas, recheada de muitos trabalhos, falar de Política e seus desdobramentos nas questões sociais tornou-se algo proibido, evitado e silenciado ao ponto de ser enquadrado como assunto antidoutrinário.

O espírita encarnado ou desencarnado que defende e divulga a ideia de que o Espiritismo é apolítico e ajuda a difundir o pensamento de que falar de Política é algo antidoutrinário, evidencia o quanto que desconhece sobre o que de fato é o fazer espírita a partir da noção fundamental de Espiritismo apresentada por Allan Kardec. E a razão desse desconhecimento se dá pelo fato de não saber o que é algo “apolítico” e “antidoutrinário” e ainda correlacionar essas palavras com um sentimento de advertência de modo a evitar o diálogo sobre Espiritismo e Política.

Apolítico, segundo o dicionário, é tudo aquilo que não é político, que não apresenta significado político, é aquilo ou aquele que não se interessa por política ou por ela tem aversão. Já antidoutrinário seria significado também pelo dicionário como tudo aquilo que está em desacordo com uma certa doutrina. Além disso, o próprio conceito de Política precisa também ser esclarecido de modo a espantar o fantasma que essa palavra representa.

No imaginário de muitos espíritas encarnados e desencarnados, a Política é entendida como sinônimo de politicagem o que acaba trazendo para essa palavra o sentido de algo sujo, errado, imoral, não ético ou que vibratoriamente não é bom para as energias da casa espírita e nem para a mente dos ditos médiuns que podem se desequilibrar e serem assediados por maus Espíritos que encontrariam brechas se assuntos ligados à Política fossem trazidos e abordados pelo Espiritismo. Quando, em verdade, a Política é uma ciência da sociedade, fruto de saberes humanos que foram desenvolvidos e aprimorados ao longo da História, acompanhando a evolução das sociedades e da própria compreensão dos seres humanos sobre as necessidades que possuem nos grupos sociais em que estão inseridos e que compõem as nações ao redor de todo o planeta Terra.

Política é uma arte de pensar e estruturar as instituições oferecedoras de serviços que objetivam atender as demandas e necessidades das pessoas que se relacionam socialmente. Em outras palavras, a Política é a expressão pensada, falada, estruturada, registrada e sentida dos Espíritos encarnados e desencarnados ao longo da História, nas diversas sociedades com seus aspectos culturais característicos. É, portanto, fruto das escolhas dos Espíritos encarnados com todas as suas boas ou más influências por parte dos Espíritos desencarnados.

Devidamente conceituadas estas palavras, façamos agora o exercício de questionar se de fato o Espiritismo não pode dialogar com a Ciência Política, como muitos defendem. Consultando o próprio Kardec, como pedem aqueles que defendem um Espiritismo apolítico, questiona-se como podemos estudar a pergunta 573 de O Livro dos Espíritos quando Kardec busca entender em que consiste a missão dos Espíritos encarnados, cuja resposta fala sobre a instrução dos homens para auxiliar com o progresso desses e complementa falando sobre o melhoramento das instituições por meios diretos e materiais, e não vermos o conceito de Política presente?

Ainda dessa obra, como estudar em sua questão 818, que aborda a inferioridade moral da mulher em certas regiões como sendo o resultado do predomínio injusto e cruel que sobre ela assumiu o homem e também resultado das instituições sociais e do abuso da força sobre a fraqueza, e não vermos de forma clara o conceito de Política presente?  Sobretudo a Política de acolhimento e proteção às mulheres e a luta pela garantia dos direitos civis dessas mulheres de modo a tornar justa e equivalente a posição social ocupada por elas e os homens, que historicamente fizeram as leis só para si e venderam a ideia de que a mulher é o sexo frágil, sendo este último pensamento uma imensa tolice de homens moralmente pouco adiantados que formatam seus direitos através da força e da opressão.

Como estudar a questão 797, do mesmo livro, sobre a reformulação das leis da sociedade cuja resposta central passa pelo reconhecimento de que é pela força das coisas e pela influência das pessoas de bem que guiam a marcha do progresso e que são essas as responsáveis a reformular tantas leis que ainda são cruéis e injustas e que validam desigualdades e encobertam violências dos mais diversos matizes, e não vermos a flagrante presença da Política como essência do ensinamento? Ou ainda, quando vemos o conceito de que todos os Espíritos possuem fundamentalmente e primariamente o direito à vida, na pergunta 880, e não reconhecermos o compromisso político que se lança sobre os ombros dos espíritas para garantir uma vida com qualidade para mulheres, crianças, idosos, negros, indígenas, gays, lésbicas, transexuais, travestis, pobres, periféricos, suburbanos e pessoas em condição de rua e extrema miséria?

É tão nítido o potencial dialógico do Espiritismo com a arte Política e com todos os desdobramentos possíveis através das temáticas presentes na sociedade, que nem de longe, nem no pior dos pesadelos, nem na mais complexa obsessão, nem na maior obscuridade umbralina se pode admitir chamar o Espiritismo de apolítico ou que dialogar sobre Política seja considerado assunto antidoutrinário. O Espiritismo nunca foi e nunca será apolítico porque o fazer espírita é por si só um fazer político que visa atuar no mundo trazendo a perspectiva do Espírito imortal de modo a contribuir com a espiritualização dos seres humanos.

O Espiritismo almeja mudar hábitos culturalmente engessados em crenças materialistas e inaugurar uma nova fase na humanidade marcada pela renovação social em que os homens e mulheres, espiritualizados e conscientes das suas missões enquanto encarnados, assumam as instituições presentes na sociedade direcionando-as para o atendimento das demandas de um mundo que clama por justiça e igualdade social e sobretudo por amor, o mais elevado de todos os sentimentos. 

Sendo assim, conclamemos: Espíritas, amai-vos, instruí-vos e politizai-vos hoje, amanhã e sempre. Assim seja!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Referencial Bibliográfico

 

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos: princípios da doutrina espírita. Livraria Allan Kardec Editora, 2007.

 

 

 

 


sexta-feira, 22 de abril de 2022

Contribuições Para um Pensar Decolonial nos Estudos Espiritas

 



Por Lídia Pimentel


Lidia Valesca Pimentel[1]

 

Esse artigo nasceu de uma inquietação epistemológica acerca das bases da modernidade, de sua visão eurocêntrica de homem e a influencia do colonialismo no movimento espirita, desde Kardec até os dias atuais. O uso de termos como “selvagem”, “primitivo”, “superior” em vários textos Espiritas e as várias alegações de elementos racistas tem vindo à baila.   

Vivemos em um momento oportuno para introduzir uma reflexão decolonial, em meio a mudanças no movimento espirita brasileiro, com o aparecimento de coletivos progressistas trazendo a leitura critica de obras e autores esquecidos, numa dinâmica dialógica com a ciências sociais e a filosofia e os seus posicionamentos frente aos acontecimentos da atualidade.  

Para compreender a importância do pensamento decolonial é necessário, inicialmente, compreender o que significou o pensamento colonial e depois a “virada de chave”, originada, ainda no século XX, com a crise de paradigmas da modernidade e a irrupção de um pensamento decolonial, crítico do colonialismo. 

O pensamento colonial apareceu na modernidade não somente como a expansão territorial dos estados europeus, com a crise do capital, na segunda metade no sec. XIX. Se constituiu como forma ideológica de entendimento de homem como ser universal, a imagem e semelhança do europeu, com padrão de civilidade típicos da cultura ocidental, legitimados a partir de conceitos evolucionistas, em escalas de evolução social e moral, elaboradas pelos próprios colonizadores.

Os avanços da biologia com as pesquisas de Charles Darwin, com grande projeção de sua obra “A Origem das espécies em 1859”, influenciou o pensamento positivista em sua visão de sociedade, os colonizadores modernos criaram um discurso sobre O outro colonizado como inferior, legitimando a exploração, como ideia de progresso e “de missão civilizatória”. Desse modo, podemos dizer que a colonialidade não é uma questão apenas da administração das colônias, mas uma epistemologia que influenciou as ciências humanas e a filosofia, tanto no plano teórico como metodológico. 

Foi assim que o positivismo deu suporte ideológico para que essas sociedades fossem consideradas primitivas e seus povos inferiorizados, numa escala onde o Europeu foi considerado moralmente superior, excluindo o conhecimento das tradições não ocidentais, como diz Walter Mignolo:    

“Colonialidade” equivale a uma “matriz ou padrão colonial de poder”, o qual ou a qual é um complexo de relações que se esconde detrás da retórica da modernidade (o relato da salvação, progresso e felicidade) que justifica a violência da colonialidade. E descolonialidade é a resposta necessária tanto às falácias e ficções das promessas de progresso e desenvolvimento que a modernidade contempla, como à violência da colonialidade. (MIGNOLO, 2017 p. 13)

 

A agenda colonial produz a descredibilidade de inúmeras formas de existência e de saber, como também produz a morte, seja ela física, através do extermínio, ou simbólica, através do desvio existencial (SIMAS e RUFINO, 2018 ) Nasce de um discurso sobre o outro com subalterno e inferior. Isso não dá para aceitar!    

O pensamento pós colonial é uma tendencia epistemológica nas ciências sociais desde a emancipação das coloniais africanas que propõe uma reflexão crítica das epistemologias modernas, que propuseram uma racionalidade ocidental, como modelo hegemônico de cultura e razão.  Como diz Santos (2014) Uma “epistemologia do sul”. Um modo de pensar que leva em consideração os saberes locais, numa metáfora do sul não como espaço geográfico, mas como modelo contra hegemônico do pensamento norte global.  Aceitação de outras cosmovisões, como modelos intuitivos de pensar, representar e viver no mundo, como as dos indígenas brasileiros, a de tribos africanas, os povos da índia entre tantos outros na vastidão de manifestação da cultura humana.   

Alan Kardec, assim como outros pensadores espiritas do seu tempo, são herdeiros de uma filosofia moderna colonial e não teria como ser diferente, dado o seu contexto.  O modelo de ciência no tempo de Kardec tentava emancipar-se do tradicionalismo e dogmatismo medieval e seus valores arcaicos. O Espiritismo de Kardec, no plano filosófico, recebeu influência do iluminismo e sua visão de racionalidade universal. Numa perspectiva cientifica, foi influenciada pelas ciências naturais e os nascentes estudos sobre a psiquismo humano.

No entanto, podemos afirmar que Alan Kardec ultrapassou a ciência do seu tempo, trazendo o “paradigma do espirito” e uma crítica as ciências a quem chamou de materialistas, por reduzir o conhecimento apenas ao que pode ser validado a partir de experimentos comprovados materialmente. O pensamento espirita vai costurar elementos complexos advindos das respostas dos Espíritos, em sua maioria cristãos, com a interpretação de Kardec e seu próprio entendimento, numa perspectiva dialógica entre os conhecimentos de seu tempo e os valores de uma ética universal dada pelos espíritos.   

A diferenças entre os povos para os franceses era chamada de civilizacion, como o conjunto dos aspectos da vida material e cultural de um grupo social em qualquer estágio de seu desenvolvimento.  Para os Espíritos em resposta a Kardec

A civilização tem os seus graus, como todas as coisas. Uma civilização incompleta é um estado de transição que engendra males especiais, desconhecidos no estado primitivo, mas nem por isso deixa de constituir um progresso natural, necessário, que leva consigo mesmo o remédio para aqueles males. A medida que a civilização se aperfeiçoa, vai fazendo cessar alguns dos males que engendrou, e esses males desaparecerão com o progresso moral. (O livro dos Espiritos questão 793)

 

Os termos primitivo, bem como, selvagem, inferior ao se referir aos povos “não civilizados” ou de uma civilidade “incompleta” está alçada numa visão de moral. Seria essa a mesma moral pensada pelo colonizador?

Os Espíritos esclarecem:

Vós a reconhecereis pelo desenvolvimento moral. Acreditais estar muito adiantados por terdes feito grandes descobertas e invenções maravilhosas; porque estais melhor instalados e melhor vestidos que os vossos selvagens; mas só tereis verdadeiramente o direito de vos dizer civilizados quando houveres banido de vossa sociedade os vícios que a desonram e quando passardes a viver como irmãos, praticando a caridade cristã. Até esse momento não sereis mais do que povos esclarecidos, só tendo percorrido a primeira fase da civilização.

 

Kardec escreve ainda em uma nota essa questão, enfatizando a dimensão ético-moral:

De dois povos que tenham chegado ao ápice da escala social, só poderá dizer-se o mais civilizado, na verdadeira acepção do termo, aquele em que se encontre menos egoísmo, cupidez e orgulho; em que os costumes sejam mais intelectuais e morais do que materiais; em que a inteligência possa desenvolver-se com mais liberdade; em que exista mais bondade, boa-fé, benevolência e generosidade recíprocas; em que os preconceitos de casta e de nascimento sejam menos enraizados, porque esses pré-juízos são incompatíveis com o verdadeiro amor do próximo; em que as leis não consagrem nenhum privilégio e sejam as mesmas para o último como para o primeiro; em que a justiça se exerça com o mínimo de parcialidade; em que o fraco sempre encontre apoio contra o forte; em que a vida do homem, suas crenças e suas opiniões sejam melhor respeitadas; em que haja menos desgraçados; e, por fim, em que todos os homens de boa vontade estejam sempre seguros de não lhes faltar o necessário

 

Ainda na mesma questão, uma nota de Herculano Pires, tradutor dessa edição:

 Será essa a civilização cristã que o Espiritismo estabelecerá na Terra. Como se vê pelas explicações dos Espíritos e os comentários de Kardec, a civilização incompleta em que vivemos é apenas uma fase de transição entre o mundo pagão da Antiguidade e o mundo cristão do Futuro. Nos costumes, na legislação, na religião, na prática dos cultos religiosos vemos a mistura constante dos elementos do paganismo com os princípios renovadores do Cristianismo. Cabe ao Espiritismo a missão de remover esses elementos pagãos para fazer brilhar o espírito cristão em toda a sua pureza.

 

O que deduzir do significado de “costumes mais intelectuais do que materiais”? Como interpretar os dizeres de Herculano Pires? O que significa remover os elementos do paganismo?  Que elementos são esses? O pensamento de Pires soa flagrantemente colonialista, de uma visão de cristianismo como religião superior. Isso deve ser assim?

Admitir a influência de uma visão colonialista nessa interpretação é fundamental para poder ultrapassá-la. Se considerarmos que a ideia de costume e leis são próprias de cada cultura e tem manifestações históricas próprias, cada civilização teve o seu próprio processo civilizador e não poderíamos classificar como superior ou inferior, mas como participe de seu próprio processo de mudança, rumo a uma ideia de progresso moral intrínseca ao próprio conceito.   Problematizar a ideia de uma escala civilizatória para admitir que o processo civilizatório é  necessário para ultrapassar o orgulho do ocidente, sua noção de desenvolvimento material, para adentrar as noções princípios ético-morais,  como esclareceram os espíritos a Kardec.

As Ciências Sociais, nascente no mesmo tempo de Kardec, nasceu sob os auspicio de uma epistemologia colonialista e com forte influência do darwinismo social. Todavia, as Ciências Sociais realizaram sua própria critica, se abriram para as perspectivas pós coloniais. Assim pode ser os estudos espiritas? Essa é a questão posta, as quais não é mais possível jogar para baixo do tapete, mas encará-la como dilema epistemológico, que só poderá ser resolvido com a superação dogmáticas das obras básicas.

A decolonialidade é como uma chave que pode abrir as portas de uma auto reflexão do movimento espirita e ajudar os seus estudiosos a revisitar criticamente a influência do paradigma racionalista da ciência moderna e do positivismo, método hegemônico na ciência do Sec. XIX, para admitir que o Espiritismo é um conhecimento produzido a partir de fontes europeias, com a influência de espíritos cristãos, com os valores ocidentais sobre homem, Deus e sociedade.  

Se no passado o Espiritismo acompanhou as ciências do seu tempo, nos dias atuais, pode abrir-se aos dilemas do sec. XXI, continuar a produção do saber espirita, iniciada por Kardec, entender as emergências do novo tempo, seguindo os passos que o próprio mestre de Lion ensinou, alinhar a Ciência Espirita ás dinâmicas da própria ciência.

A superação da mentalidade colonial abre as portas do pensamento para o encontro de interculturalidade e para o diálogo interreligioso que rejeita o discurso sobre o outro, valoriza a auto determinação identitária. Proporciona um encontro entre sujeitos, suas diferenças, tendo em vista a diversidade do mundo.

A decolonialidade nos leva a compreensão de uma humanidade ampla, com experiências reencarnatórias plurais, vividas em corpos sociais diversos, com visões de mundo distintos e multiculturais. No plano da mediunidade, admite a importância de outras narrativas de espíritos que viveram realidades não europeias e não cristãs, admitindo como espiritualidade válida na grande rede de interconexão existente. Alcançar uma ideia de universalidade constituída por culturas diferentes, respeitadas em suas manifestações. 

A decolonialidade pode lançar luz as práticas espiritas a partir do pressuposto que a ação e o pensamento perfazem o sentido do fazer espirita conjuntamente.  A ação espirita deve ser manifestada com as bases ética do bem comum, do respeito as diferenças dos povos, da democracia, da tolerância e da cultura de paz entre as nações, sem superioridade econômica e ou cultural, estabelecendo a cooperação mutua. Os povos originários, por exemplo, têm muito a ensinar aos povos ocidentais

Um fazer que propõe uma pedagogia, ao invés de uma evangelização que cria a caricatura do “evangelizando”, depositário de um conhecimento, desconsiderando os aprendizados já existentes e a realidade em que vivem. Sujeitos ativos da aprendizagem, com sua bagagem cultura local e cosmologia própria. Uma pedagogia da autonomia, como ensina Paulo Freire, com os valores da emancipação, da troca de saberes e uma construção partilhada do mundo.

Uma ação fraterna e solidária que supere as práticas assistencialistas que objetifica as pessoas. Percebe o outro não como um “necessitado” ou “assistido”, mas como um sujeito de direitos.  Cidadania ativa, transformadora da sociedade rumo a justiça social e a igualdade entre todos. Uma espiritualidade viva que integre o sentir, o pensar e o fazer com bases éticas do cuidado e do bem comum.    

Por fim, é preciso esclarecer que o pensamento decolonial não nos dá um roteiro pronto para os estudos espiritas, mas aponta para as bases epistemológicas, um jeito de pensar que supere o poder de um conhecimento sobre o outro, supremacia religiosa, filosófica ou cientifica, que possa engendrar como únicos ou verdadeiros.

 

Referencias:

KARDEC, Alan. O livro dos Espiritos. Tradução de José Herculano Pires. Lake: São Paulo, 2013.

MINOLO, Walter D. Colonialidade o lado mais obscuro da modernidade. Revista brasileira de ciências sociais - vol. 32 n° 94 – Tradução de Marco Oliveira. 2017.

SIMAS, Luiz Antônio; RUFINO, Luiz. As ciências encantadas da macumba. Mórula: Rio de Janeiro, 2018. 

SANTOS, Boaventura de Sousa, MENEZES, Maria Paula. Epistemologias do Sul. Edições Elmedina, Coimbra, 2009.

 

 

 

 



[1] Doutora em Sociologia. Professora Universitária. Espirita, membro do Coletivo Girassois – Espirita pelo Bem Comum.

quarta-feira, 13 de abril de 2022

Política e Coletividade como Caminhos do Progresso



Por: Luiz Gustavo


Reconhecer o pensamento político da doutrina espírita é essencial para o espírita se posicionar e atuar em sociedade de modo coerente com sua crença. Kardec escrevia:


O Espiritismo ..., tocando a todos os ramos da economia social, às quais presta o apoio de suas próprias descobertas, assimilará sempre todas as doutrinas progressivas, de qualquer ordem que sejam. (A Gênese, cap. I, nº 55.)

[Proceder a] uma comunidade de ideias em moral, em política, e sobretudo em religião. Tal será a obra da filosofia nova, o Espiritismo, que vos ensinamos hoje. (Revista Espírita, nov. 1862, “Da origem da linguagem”.)

E Léon Denis nos deixou esta definição clara: “O Espiritismo é, ao mesmo tempo, uma ciência positiva, uma filosofia, uma doutrina social”. (Síntese espiritualista doutrinal e prática, nº 89.)

Infelizmente, muitos adeptos desavisados, ou desviados por orientações alheias aos fundamentos doutrinários, rejeitam pensar a partir do Espiritismo sobre ideias “políticas” ou de “economia social”, que tocam à doutrina, como diz Kardec. Pior, rechaçam com veemência aqueles que as abordam, tachando-os injustamente de “materialistas”... Isso se explica por uma reflexão de séculos. Desde que há injustiça na sociedade, que há “forte” e “fraco” (Allan Kardec, Livro dos Espíritos, nº 781), “exploradores” e “explorados” (Allan Kardec, Viagem espírita em 1862, Discursos, nº III, § 2), isto é, a chama “dialética senhor-escravo”, surge uma mentalidade apropriada aos dominados, como explicava o filósofo Hegel:


O “escravo” [isto é, o dominado] encontra “ideologias escravas” que justificam sua posição, incluindo o estoicismo (na qual ele rejeita a liberdade externa em troca da mental), o ceticismo (na qual ele duvida do valor da liberdade externa) e a consciência infeliz (na qual ele encontra a religião e escapa, só que em outro mundo). Hegel detectava essa relação “senhor-escravo” [dominante-dominado] em diversos lugares – nas guerras entre estados mais fortes e mais fracos, e nos conflitos entre classes sociais e outros grupos. (Paul Kelly et al., O livro da política, cap. “Georg Hegel”, p. 159.)

É fenômeno frequente e antigo na história, como se vê (desde o período helenístico), a criação de discursos conformadores, apassivadores, em religiões e filosofias. Os antigos chineses e indianos aceitavam a dominação dinástica, numa sociedade de castas, valendo-se da religião hindu, reencarnacionista; com ela, procuravam abster-se da “liberdade externa”, social, buscando a “liberdade íntima”, a realização do “Eu interior”. A fuga da atuação social transformadora atingiu parte do pensamento grego antigo, no estoicismo e no cinismo, assim também do romano. Na Idade Média, na Europa, a sociedade feudal criou a mentalidade monástica, praticamente ascética. No século XV, o capitalismo nascente encontrou grande respaldo à dominação no protestantismo, quando as igrejas reformadas transformaram a mensagem cristã em ideologia conservadora, conformadora do trabalhador às novas formas de exploração, tendo em vista a liberdade no “outro mundo”, como diz Hegel.

A “ideologia escrava” assume diversas formas e sempre apresenta caráter fortemente individualista e conservador, pois ela é precisamente a maneira como o dominado se exime da luta por sua liberdade. Luta que, levada a cabo, promoveria o progresso[1]. Assim, as “ideologias escravas”, conservadoras e individualistas que são, sempre se opõem às ideias sociais progressistas.

E entre os espíritas, houve exceção a isso? De maneira alguma. A doutrina espírita em si, como a de Jesus e dos profetas antigos, como ainda a filosofia platônica, é eminentemente progressista, propondo grandes melhorias sociais e claros posicionamentos políticos. Mas a dominação social cria uma mentalidade apassivadora, uma “ideologia escrava” também afeita aos espíritas. E encontrou-se para isso um respaldo no chamado roustainguismo (ou “rustenismo”, como escreve Sérgio Aleixo), de J. B. Roustaing, primeiro cismático espírita, cuja doutrina, diversa daquela trazida por Kardec, fazia aceitar cegamente os ditados mediúnicos e rechaçava a realidade material como imundície. Esse viés ganhou vulto no movimento espírita e serviu para que inúmeros livros mediúnicos, sem controle nem coerência doutrinária, formassem, ao longo de décadas, a mentalidade apassivadora do movimento espírita hegemônico atual: aceitação das verdades reveladas sem exame e rejeição do pensamento social. Isso fez com que se recortassem, das obras espíritas fundantes ou clássicas – de Kardec a Denis, passando por Lachâtre e Mariño –, o que se referisse ao pensamento político ou social espírita[2]. A regra é: nada de política nos meios espíritas. Só iluminação da alma, pelo sentimento e pensamento, no oásis de indiferentismo da chamada “reforma íntima”. A divulgação e o estudo dos assuntos sociais pelos espíritas – consequentemente, sua participação política – foram substituídos por pregações emocionais, enlevadas e motivacionais, características da mentalidade escrava que permeia toda a história e desnatura as doutrinas progressistas. Mensagens de conformação ao sofrimento, de culpabilização, de medo e de consolação fora deste mundo dão o tom para a “moral” do espírita, bem recheadas de estorietas e “casos” romanceados, que supostamente mostram a lei divina chancelando tal comportamento... Os espíritas, portanto, não ficaram imunes à “ideologia escrava” apontada por Hegel.

Porém, Kardec e muitos espíritas pioneiros perspicazes identificavam esse problema já em seu tempo. Vemos uma excelente denúncia desse modo de pensar inócuo, dessa ideologia escrava – que tomava muitos meios religiosos e filosóficos do século XVIII, mas que os espíritas não encampavam ainda –, neste trecho da fala consciente do dirigente do grupo de operários espíritas, Sr. Desqueyroux, publicado por Kardec:


É preciso confessá-lo, há momentos na vida em que a razão poderia talvez nos sustentar, mas há outros em que se tem necessidade de toda a fé que dá o Espiritismo para não sucumbir. Em vão os filósofos nos vêm pregar uma firmeza estoica; enunciar-nos suas pomposas máximas; dizer-nos que o sábio não é abalado por nada, que o homem é feito para se possuir a si mesmo e dominar os acontecimentos da vida; enfadonhas consolações! Longe de abrandar minha dor, vós a acidificais; em todas as vossas palavras, não encontramos senão vazio e secura. (...) Sim, nosso mestre [Allan Kardec]; continua tua augusta missão; continua a nos mostrar essa ciência que vos é ditada pela bondade divina; que faz nossa consolação durante esta vida, e que será o sólido pensamento que nos firmará no momento da morte. Recebe, caro mestre, essas poucas palavras saídas do coração de teus filhos, pois és nosso pai de todos; o pai da classe laboriosa e dos aflitos. (Allan Kardec, Revista Espírita, nov. 1861, “Banquete – Discurso do Sr. Desqueyroux, mecânico, em nome do grupo dos operários”.)

Palestras e oradores espíritas “emocionantes” e preocupados apenas com o íntimo, hoje, cairiam sob a mesma crítica. Em vista do quanto se disse, e criticando os rumos ideológicos conservadores, intimistas e fugitivos da política que têm tomado o movimento espírita hegemônico, o filósofo espírita brasileiro J. Herculano Pires afirma, categórico:


Criaríamos uma ilusão anti-espírita se acreditássemos na possibilidade dessa abstenção política, alvitrada por alguns confrades, em diversas ocasiões. (O sentido da vida, cap. “Sociologia espírita”, p. 78.)

Diante de tal cenário, cabe ao espírita não mais adotar essa atitude frontalmente anti-espírita, não mais acolher essa ilusão, essa ideologia escrava conservadora apartada dos fundamentos doutrinários.

Por exemplo. A preservação ambiental e a suficiência de recursos naturais para suprir a necessidade de todos é tema tratado na doutrina:


Por que a terra não produz sempre bastante para fornecer o necessário ao homem? “É que o homem a negligencia, o ingrato! É, no entanto, uma excelente mãe. Frequentemente também, ele acusa a natureza do que só é o feito de sua imperícia ou de sua imprevidência. A terra produziria sempre o necessário se o homem soubesse se contentar. Se ela não basta a todas as necessidades, é que o homem emprega no supérfluo o que poderia ser dado ao necessário. (...) Em verdade vos digo, não é a natureza que é imprevidente, é o homem que não sabe se regrar.” (Allan Kardec, Livro dos Espíritos, nº 705.)

Eis a resposta à falácia da escassez econômica, que só pode existir em função do desregramento humano.

Também vemos a produção de bens e sua distribuição, numa crítica da organização social, ser tratada nos textos doutrinários:


Os meios de existência fazem frequentemente falta a certos indivíduos, mesmo no meio da abundância que os cerca; a que devem atribuir isso? “Ao egoísmo dos homens, que não fazem sempre o que devem; em seguida, e o mais frequentemente, a eles mesmos.” (...) Para todo mundo há lugar ao sol, mas é com a condição de aí tomar o seu, e não o dos outros. A natureza não poderia ser responsável pelos vícios da organização social e pelas consequências da ambição e do amor-próprio. (Allan Kardec, Livro dos Espíritos, nº 707.)

Sem dúvida, atribuir a Deus, ao “carma” ou à natureza o que é problema da má organização social é próprio da ideologia escrava, que teima em não enxergar na injustiça, na opressão econômica e nos desvios morais tornados sistêmicos a causa imediata, direta e atual da desigualdade, da pobreza e da maior parte das dores do mundo[3]. Como falamos no início, a doutrina expõe abertamente o problema político, econômico, social e moral, permitindo que nos movamos em direção à sua solução coletivamente, como manda a lei do progresso[4]. O mundo há de se regenerar, o reino de Deus há de vir sobre a Terra, mas com a condição de que deixemos a indiferença[5] individualista conservadora e passemos a caminhar como o ser coletivo que somos[6].

Para isso, é imprescindível resgatar a essência progressista da doutrina, a mobilização que ela solicita a todos, de modo a estudar outros tantos problemas de ordem social, econômica e política à sua luz e nos colocarmos em movimento transformador. Passemos adiantes dessas ideologias escravas, imobilizadoras, enfadonhas, apassivadoras, baseadas no rustenismo e contidas nas obras mediúnicas sem exame, e tornemos às fontes sustentadoras da consciência social do Espírito encarnado na Terra, isto é, às obras espíritas fundamentais (Kardec) e filosóficas clássicas (Denis, Mariño, Lachâtre, Herculano Pires, Mariotti, etc.). A fim de que, com resultado de nossas práticas, o mundo seja não apenas regenerado pela nossa ação, mas verdadeiramente regenerador dos Espíritos que nele se encarnem[7].

 

Referências bibliográficas

ALEIXO, Sérgio F. O primado de Kardec: metodologia espírita e cisma rustenista. Rio de Janeiro: ADE-RJ, 2011.

DENIS, Léon. Síntese espiritualista doutrinal e prática (1920). Trad. Luiz Gustavo Oliveira dos Santos. Limeira, SP: Editora do Conhecimento, 2021.

DENIS, Léon. Socialismo e espiritismo (1924). Trad. Luiz Gustavo Oliveira dos Santos. Limeira, SP: Editora do Conhecimento, 2018.

KARDEC, Allan. Le Livre des Esprits: philosophie spiritualiste [O Livro dos Espíritos: filosofia espiritualista]. 17.ed. Paris: Didier et Cie., 1869.

KARDEC, Allan. Revue Spirite: journal d’études psychologiques [Revista Espírita: jornal de estudos psicológicos]. 12 vol. Paris: Bureau Rue Sainte-Anne, 1858 – Société Anonyme, 1869.

KARDEC, Allan. Voyage Spirite en 1862 [Viagem espírita em 1862]. Paris: Ledoyen; Bureu de La Revue Spirite, 1862.

KELLY, Paul [et al]. O livro da política. Trad. Rafael Longo. São Paulo: Globo, 2013.

LACHÂTRE, Maurice. O espiritismo, uma nova filosofia (1880). Trad. Irene Goodjes. Bragança Paulista, SP: Lachâtre, 2014.

MARIÑO, Cosme. Conceito espírita do socialismo (1913). Trad. Luiz Gustavo Oliveira dos Santos. Limeira, SP: Editora do Conhecimento, 2022.

MARIOTTI, Humberto. O homem e a sociedade numa nova civilização: do materialismo histórico a uma dialética do espírito. Trad. J. L. Ovando. Prefácio de J. Herculano Pires. São Paulo: Edicel, 1967.

PIRES, J. Herculano. O reino. 5.ed. São Paulo: Paideia, 2002.

PIRES, J. Herculano. O sentido da vida. São Paulo: Paideia, 2005.

SANTOS, Luiz Gustavo O dos. O suposto “alerta de Kardec sobre política” e a repulsa à política no movimento espírita. Disponível em: <http://tiny.cc/6ggqu>. Publicado em: 18 mar. 2022. Acesso em: 07 abr. 2022.

 



[1] Entretanto, encontrareis ainda entraves em vossas tentativas para chegar à melhoria social. É que não se chega jamais ao resultado sem que a luta venha afirmar os esforços. (Allan Kardec, Revista Espírita, mar. 1868, Instruções dos Espíritos, “A regeneração”.)

[2] Para maiores desenvolvimentos sobre a repulsa do movimento espírita hegemônico à política e o suposto “alerta” de Kardec sobre política, há um texto meu disponível no link: <http://tiny.cc/6ggquz>.

[3] A desigualdade das condições sociais é uma lei natural? “Não, ela é obra do homem e não de Deus. ... Essa desigualdade desaparecerá juntamente com a predominância do orgulho e do egoísmo.” (Allan Kardec, Livro dos Espíritos, nº 806.)

[4] Em que consiste a missão dos Espíritos encarnados? “Instruir os homens, ajudar em seu avanço; melhorar suas instituições por meios diretos e materiais.” (Allan Kardec, Livro dos Espíritos, nº 573.)

[5] Ó homens! Refleti que depende de vós apressar o reino de Deus sobre a Terra ou afastá-lo; que sois responsáveis uns pelos outros; que, melhorando-vos, trabalhais para a regeneração da humanidade; a tarefa é grande; a responsabilidade pesa sobre cada um, e ninguém pode se recusar. (Allan Kardec, Revista Espírita, dez. 1859, “Comunicações externas”.)

[6] O homem não é um ser isolado, é um ser coletivo. O homem é solidário do homem. É em vão que ele procura o complemento do seu ser, quer dizer, a felicidade em si mesmo ou no que o rodeia isoladamente: ele não pode encontrá-la senão no homem ou na humanidade. Não fazeis, portanto, nada para ser pessoalmente felizes, enquanto a infelicidade de um membro da humanidade, de uma parte de vós mesmos, puder vos afligir. (Allan Kardec, Revista Espírita, nov. 1866, “A solidariedade”.)

[7] Que o princípio da caridade e da fraternidade seja a base das instituições sociais, das relações legais de povo a povo e de homem a homem, e o homem pensará menos em sua pessoa quando vir que outros nele pensaram; ele sofrerá a influência moralizadora do exemplo e do contato. (Allan Kardec, Livro dos Espíritos, nº 917.)

quarta-feira, 23 de março de 2022

Os ventos revolucionários que sopravam da França, em 1789, invocavam três palavras que se tornaram paradigmáticas no vocabulário dos direitos humanos: Liberdade, igualdade e fraternidade. Esta última, não era vista propriamente como um “direito”, mas como uma condição esperada nas relações sociais. Numa época de nobres, burgueses, servos e escravos, cuja tradição naturalizava a terrível desigualdade social, o pensamento iluminista e os ideais de 1789, deixariam significativas contribuições aos séculos seguintes.

Robespierre, advogado e político radical, em seu “Discurso sobre a organização das guardas nacionais”[2], publicado em dezembro de 1790, enfatizava o lema: “Liberdade, igualdade e fraternidade”, como palavras que deveriam ser escritas na bandeira da França. Mais do que estampar essas palavras em bandeiras nacionais, é imprescindível construir uma sociedade mais fraterna, com justiça social e com leis que resguardem, de fato, a dignidade humana e o bem comum.

Allan Kardec, cujo nome verdadeiro era Hippolyte Léon Denizard Rivail nasceu em 1804, ano em que Napoleão Bonaparte se autoproclamou imperador dos franceses. Sua formação intelectual se deu com base na cultura filosófica, científica e humanista de sua época.[3]  Kardec, como sabemos, foi o fundador de uma filosofia singular, espiritualista, racionalista, humanista, progressista, que descortinou e naturalizou a dimensão espiritual do ser humano.

Engana-se, no entanto, quem vê no espiritismo uma via de fuga diante dos desafios sociais, cujo foco é, tão somente, os problemas metafísicos. A discussão sobre os direitos naturais, os direitos humanos e justiça social, estão presentes no conjunto da obra kardequiana. Em O Livro dos Espíritos, considera-se que o primeiro de todos os “direitos naturais” do ser humano é o direito à vida, uma verdade autoevidente, um princípio inalienável.[4] Reconhecendo, ainda, que para sobreviver é necessário ao ser humano, possuir condições materiais de existência e de dignidade.[5]

Na terceira parte de O Livro dos Espíritos, intitulada: “As Leis Morais”, encontram-se o que podemos chamar de “teses sociais espíritas” que refletem sobre as funções do trabalho, da dinâmica social, da igualdade, da liberdade, do progresso, da justiça, amor e caridade. Os direitos humanos estão, inexoravelmente, no centro dessas discussões. Ao tratar, por exemplo, da “Lei de Liberdade”, o espiritismo se posiciona na defesa da liberdade de pensamento, de consciência e de crença, contra qualquer forma de intolerância e de escravidão:

 

Em sua acepção mais vasta, o livre-pensamento significa: livre-exame, liberdade de consciência, fé raciocinada; simboliza a emancipação intelectual, a independência moral, complemento da independência física; não quer mais escravos do pensamento, pois o que caracteriza o livre-pensador é que este pensa por si mesmo, e não pelos outros; em outros termos, sua opinião lhe é própria. Assim, pode haver livres-pensadores em todas as opiniões e em todas as crenças. Neste sentido, o livre-pensamento eleva a dignidade do homem, dele fazendo um ser ativo, inteligente, em vez de uma máquina de crer.[6]

 

Não era nada fácil, ainda no século XIX, defender a liberdade de expressão e de crença.[7] Nota-se no pensamento de Kardec, uma clara influência dos valores que permeavam a cultura progressista de sua época. No entanto, o espiritismo nascente oferecia novos elementos para essa cultura. O progresso da humanidade, na perspectiva da nova filosofia, estaria vinculado ao melhoramento intelectual e moral dos indivíduos, daí decorrendo o aperfeiçoamento da legislação humana e das relações sociais.[8] Na medida em que melhor conhece as “leis naturais”, que regem o Universo, o mundo físico e espiritual, o ser humano, pensava Kardec, tende a desenvolver um nível mais elevado de humanização. Essa ideia jamais deveria implicar, como veremos, num processo de alienação política dos indivíduos.

Na Revista Espírita, em março de 1871, é publicado um texto póstumo de Allan Kardec, que havia falecido em 31 de março de 1869. O título: “Liberdade, igualdade e fraternidade”[9], retomava ao ideário de uma nova ordem social. No texto, ele pondera que: “A fraternidade, na rigorosa acepção da palavra, resume todos os deveres do homem para com os semelhantes. Significa: devotamento, abnegação, tolerância, benevolência, indulgência”. Uma espécie de “programa”, segundo ele, capaz de se contrapor ao “egoísmo social”, um dos grandes males da humanidade.

Essa, de fato, parece ser uma das grandes questões que permeia o que Kardec chamou de “felicidade social”. Como é possível uma sociedade funcional, solidária e humanizada onde cada um só pensa em si mesmo e/ou em seu grupo? Obviamente, o sentido de “igualdade” numa sociedade disfuncional e desumanizada sobrevive com base nas legislações, mas permanece distante, na prática, da ideia de justiça social. A desigualdade das condições sociais, os preconceitos de classes, raciais e de gênero, são alguns exemplos vigorosos dessa lamentável e histórica realidade. Kardec, aponta um dos principais “inimigos” da igualdade: “O orgulho, que trabalha por ser o primeiro e por dominar; que vive de privilégios e de exceções e que aproveitará a primeira ocasião para destruir a igualdade social (...). Ora, sendo o orgulho uma das chagas sociais, é evidente que nenhuma sociedade terá a igualdade sem arrasar primeiro essa barreira”.[10]

Essa problemática é mais complexa, não se limitando apenas a uma perspectiva pessoal de melhoramento. Recordemos que a ideia de igualdade foi um dos pilares da declaração universal dos direitos do homem e do cidadão, uma “utopia possível”. Aliás, um mundo cujos alicerces seriam igualdade e fraternidade já havia sido pensado pelo humanista inglês Thomas Morus, em seu livro “Utopia”, escrito em 1516. Em contraponto à sociedade fortemente excludente de sua época, Morus imaginou uma ilha onde seus habitantes viviam pelo bem comum, sem classes, sem propriedade privada, sem exploração de uns sobre outros. Possivelmente, Morus tenha sido um dos pais daquilo que seria chamado de socialismo utópico.

Em O Livro dos Espíritos, Kardec indagou seus interlocutores espirituais sobre o problema da “desigualdade das condições sociais” e obteve como resposta: “É obra dos homens e não de Deus”.[11] Então, são os próprios seres humanos que necessitam resolver ou atenuar esse problema por eles criado, historicamente.

Perceba que o princípio da igualdade não contradiz o da diversidade. A filosofia espírita considera que a diversidade faz parte das múltiplas experiências do Espírito em sua trajetória evolutiva. Vivências sociais, étnicas, de gênero, de crenças, de ideologias, entre tantas outras, fazem parte do amplo contexto experiencial do ser. Por isso mesmo, a diversidade deve ser respeitada. Qual a beleza do arco-íris, sem o seu multicolorido? Qual o encanto do jardim, sem a diversidade das flores, com suas espécies e características próprias?

A diversidade de pensamentos, de culturas, de expressões estéticas, de tipos físicos, de cores, de etnias, de partidos, faz parte da riqueza da espécie humana. A igualdade defendida como um direito humano não é a uniformização da humanidade. Longe disso! Refletir sobre o tipo de civilização e de sociedade que construímos, marcada, entre outros, pela exploração e pela miséria, pelo preconceito, pela discriminação da mulher, pela homofobia e misoginia, é que necessita ser questionada. A igualdade é, justamente, o dever de se assegurar e respeitar os direitos humanos.

A teoria espírita aceita dois movimentos básicos pelos quais o progresso se desenvolve. O movimento interno, individual e pessoal, onde cada sujeito vai, dentro de seu ritmo próprio, enfrentando e superando seus condicionamentos, atavismos, vícios e preconceitos, ou seja, o seu egoísmo e seu orgulho, na construção de um humano mais humanizado. E o movimento externo, social, político, educacional, comunitário, jurídico, que visa aperfeiçoar os mecanismos coletivos de convivência. Os dois movimentos funcionam dialeticamente um sobre o outro.

Allan Kardec enfatiza, nesse sentido, que: “os preconceitos sociais, a rotina, o fanatismo, a intolerância e a ignorância” são inimigos do progresso.[12] Léon Denis, considerado um dos mais eminentes filósofos espíritas do século XIX, em suas conferências realizadas nas cidades de Tours Orléans, em 29 de fevereiro, e 4 de abril de 1880,  referindo-se ao progresso político e à situação social da França,  enfatizava o papel da cidadania:

 

A República democrática é a mais racional e a mais lógica forma de liberdade e só ela pode levantar, valorizar as almas que o despotismo humilhou. Só ela pode fazer a verdadeira igualdade entre os homens, sem rebaixar os grandes ao nível dos pequenos, porém, dando aos pequenos os meios de se elevarem gradualmente ao nível dos grandes, pela instrução, pela liberdade de trabalho e de associação, pela uniformidade dos direitos. O governo da República é a expressão da vontade nacional. O povo, reunido em seus comícios, nomeia seus representantes e estes elegem o chefe do poder. É, portanto, o povo que se governa a si próprio por meio do sufrágio universal. Cada cidadão participa da soberania. Uma nação republicana é um vasto organismo, um grande corpo, do qual cada eleitor é um membro.[13]

 

Governos despóticos, tiranos, absolutistas, autocráticos e ditatoriais são, por natureza, nocivos aos direitos humanos. Impõe censura, estruturas de repressão, intolerância e controle social, implementando a tortura e a morte como políticas de Estado. Nosso filósofo depositava grande esperança nos governos democráticos e no papel dos cidadãos. Estar no mundo é assumir, como lembrou Deolindo Amorim, reconhecido pensador espírita, compromissos diante das contingências sociais.[14] Léon Denis enfatiza ainda:

                                                                                        

Vede, cidadãos, quanto, com a República, nossa responsabilidade aumenta, pois a sorte de nosso País está em nossas mãos. Somos nós que, por nossas escolhas e nossos sufrágios, fazemos nossos destinos. Compreendei, agora, quanto é necessário que cada um de nós se esclareça e se aperfeiçoe, quanto é necessário que o julgamento de todos se fortifique, porque, eu vos pergunto, que faríamos dos direitos e das liberdades, se não soubéssemos emprega-los com sabedoria, com discernimento.[15]

 

A sociedade contemporânea, assim como na época de Kardec e de Denis, nos apresenta diariamente seus desafios humanos e sociais.  Vez por outra, ressurgem focos de intolerância, verdadeiros “tumores” degenerativos da tessitura social, conspirando contra os ideais progressistas, humanísticos e democráticos. O recrudescimento, nos últimos tempos, de ideologias (de Estado) que pregam um conservadorismo ufanista e retrógrado, sobre temas que envolvem sexualidade e família, por exemplo, com viés explicitamente patriarcal, machista e homofóbico, atualizam os debates sobre igualdade e direitos humanos.    Nesse sentido, segundo afirmou o filósofo francês Gilles Lipovetsky: “Quanto mais frustrante é a sociedade, mais ela promove as condições necessárias para uma re-oxigenação da vida”.[16] 

Para Lipovetsky, vivemos numa sociedade, apesar de todos os seus desafios, mais aberta do que no passado. Os modos de vida são cada vez mais mutáveis, baseados em um amplo leque de alternativas, escolhas e padrões. A época atual, oferece mais recursos para o enfrentamento das mazelas sociais. As sociedades no século 21 mudam com muito mais rapidez do que na época de Kardec. Existe uma frequente revisão e crítica dos descaminhos humanitários, realizada por organismos sociais, coletivos e instituições que, de alguma forma, pensam e lutam por uma sociedade melhor para todos.

 



[1] Pesquisador espírita, livre-pensador, autor de vários livros dentre os quais: “Morte, luto e imortalidade. Olhares e perspectivas, 2021.”

[2]ROBESPIERRE, Maximilien de. Discours Sur L’Organisation Des Gardes Nationales. Publié mi-décembre 1790 / Utilisé devant l’Assemblée Nationale les 27 & 28 avril 1791. XVI. Disponível em: https://books.google.com.br

[3] Allan Kardec conhecia os clássicos e traduziu obras da literatura francesa para o alemão, como Telêmaco, de Fénelon. Dominava fluentemente o latim, grego, italiano, holandês, inglês, gaulês e o castelhano. Foi um estudioso da filosofia grega, como pode ser observado em sua análise do pensamento filosófico de Sócrates e Platão, os quais considerou, ao lado de Jesus de Nazaré, como precursores do Espiritismo, na magistral introdução de O Evangelho Segundo o Espiritismo. Educado no humanismo pestalozziano, de nítida influência do pensamento ético e pedagógico de Rousseau, o fundador do Espiritismo possuía uma formação clássica, enciclopédica, típica dos humanistas de seu tempo.

LARA, Eugenio. Breve Ensaio sobre o Humanismo Espírita. Santos, SP: CPDoc, 2012. p.54-55.

[4] KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos, questão 880. Princípio também defendido na Declaração de Independência Americana em 1776.

[5] KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Questões 881 e 882.

[6] KARDEC, Allan. Livre pensamento e livre consciência. Revista Espírita. Fevereiro de 1867.

[7] Mesmo com a expansão das ideias liberais a França, na época em que Kardec escreveu esse texto, era governada por Napoleão III e seu governo ditatorial e repressor. Além disso, havia forte reação da Igreja às ideias de separação entre Estado e Religião.

[8] MOREIRA, Milton Medran. Direito e Justiça. Um olhar espírita. Porto Alegre: Imprensa Livre, 2004. p.77.

[9] O mesmo texto será publicado, também, no livro: Obras Póstumas, lançado em 1890. Para alguns estudiosos, é necessária cautela em atribuir autoria de Allan Kardec aos tais textos, uma vez que somente foram publicados após sua morte. De qualquer forma, estou considerando, para efeito de análise, o conteúdo do próprio texto, mais do que o critério de autoridade atribuído ao seu autor.

[10] KARDEC, Allan. Liberdade, igualdade e fraternidade. In. Obras Póstumas. 14º edição. Revisão e notas. Herculano Pires. LAKE. p. 195.

[11] KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos, questão 806.

[12] KARDEC, Allan. Revista Espírita. Junho de 1868,

[13] DENIS, Léon. O Progresso. Tradução: José Jorge. 2ª ed. Rio de Janeiro: Edições Léon Denis, 2005. p.44-45.

[14] AMORIM, Deolindo. Definição e opção. In. O Espiritismo e os problemas humanos. São Paulo: USE, 1985.

[15] DENIS, Léon. O Progresso. Conferência feita em Tours, na sala do Cirque, em 29 de fevereiro de 1880, e em Orléans, na sala do Instituto em 4 de abril de 1880. 2ª ed. Trad. José Jorge. Edições Léon Denis – RJ, 2005. p.45.

[16] LIPOVETSKY, Gilles. A Sociedade da Decepção. Trad. Armando Braio. Barueri-SP: Manole, 2007. p.74.

ESPÍRITAS, AMAI-VOS, INSTRUÍ-VOS E POLITIZAI-VOS!

Por: Rodrigo Sales   Ao longo das últimas décadas circulou entre os espíritas brasileiros a ideia de que o Espiritismo é uma doutrina apolít...