sábado, 6 de agosto de 2022

Espiritismo, política e atualidades por Luiz Gustavo

 



Espiritismo, política e atualidades

 

            Como vem sendo salientado, cada vez mais e por mais estudiosos sérios da doutrina, o Espiritismo trata de assuntos políticos, sociais. Traremos aqui alguns assuntos políticos da atualidade e a posição da doutrina a seu respeito. Assim, veremos um pouco como a doutrina, a política e as atualidades estão intimamente relacionadas. Daí a importância que vemos em citar passagens centrais dos textos. É de especial importância reconhecer como a doutrina espírita se posiciona sobre os diversos assuntos políticos que tocam à nossa vida, até para que, considerando-a, tomemos nossa parte na necessária transformação social da humanidade.

         Deparamo-nos hoje com o grave problema da desigualdade social, que engendra uma multidão de injustiças no mundo, sendo raiz de preconceitos, opressão, abusos, violência etc. Ora, na visão da direita política, a desigualdade social é natural, razão pela qual procura, quando não agravá-la (neoliberalismo), somente administrá-la (liberalismo social). Para a esquerda, por outro lado, a desigualdade não é natural, por isso, propõe mitigá-la (socialismo) e, ao cabo do processo social histórico progressivo, extingui-la (comunismo). Sobre isso, diz nossa doutrina:

 

806. A desigualdade das condições sociais é uma lei da natureza? “Não; ela é a obra do homem e não a de Deus.”

— Essa desigualdade desaparecerá um dia? “De eterno só há as leis de Deus. Não a vês se apagar pouco a pouco cada dia? Essa desigualdade desaparecerá com a predominância do orgulho e do egoísmo; não restará senão a desigualdade do mérito. (...) Não há senão o Espírito que é mais ou menos puro, e isso não depende da posição social.” (Allan Kardec, Livro dos Espíritos, nº 806. Destaques meus, assim nas passagens seguintes.)

 

         Lê-se aí a palavra “mérito”. Esse “mérito” de que fala a citação nada tem a ver com a “meritocracia” da posse, em voga hoje no meio capitalista. Quando a doutrina espírita fala em mérito, entende-o apenas como mérito moral, que posiciona o Espírito na escala espírita (Livro dos Espíritos, nº 100), e não um “mérito de esforço por enriquecimento” em vista de se elevar na escala social do mundo. Com efeito, o apelo ao “mérito” para justificar o enriquecimento não passa de faceta do orgulho:

 

Crer-se-ia, ao ver a atividade que desdobrais, que a ela se prende uma questão do mais alto interesse para a humanidade, enquanto que se trata, quase sempre, apenas de vos pôr em condições de satisfazer necessidades exageradas, a vaidade, ou de vos entregar aos excessos. Quantas penas, cuidados, tormentos se dá, quantas noites sem sono, para aumentar uma fortuna frequentemente mais que suficiente! Por cúmulo de cegueira, não é raro ver aqueles que um amor imoderado à fortuna e aos gozos que ela proporciona submete a um trabalho penoso prevalecerem-se de uma existência dita de sacrifício e de mérito, como se trabalhassem para os outros e não para si mesmos. Insensatos! Credes, pois, realmente que vos serão levados em conta os cuidados e esforços dos quais o egoísmo, a cupidez ou o orgulho são o móvel... (Allan Kardec, Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XVI, nº 12.)

 

         Em diversos manuais de Economia atuais, encontra-se a “escassez” de recursos naturais figurando como a principal fonte da concorrência econômica e, por conseguinte, da desigualdade social[1]. O Espiritismo, desde seu surgimento, enfatiza que esse mal da escassez não é um problema de recursos, mas de desregramento humano, ou seja, de uma organização social viciada:

 

Por que a Terra não produz sempre bastante para fornecer o necessário ao homem? “É que o homem a negligencia, o ingrato! Ela é, no entanto, uma excelente mãe. Frequentemente também, ele acusa a natureza do que é o feito de sua imperícia ou de sua imprevidência. A Terra produziria sempre o necessário, se o homem soubesse com ele se contentar. Se ela não basta a todas as necessidades, é que o homem emprega no supérfluo o que poderia ser dado ao necessário. (...) Em verdade vos digo, não é a natureza que é imprevidente, é o homem que não sabe se regrar.” (Allan Kardec, Livro dos Espíritos, nº 705.)

Para todo mundo há lugar ao sol, mas é com a condição de aí ocupar o seu, e não o dos outros. A natureza não poderia ser responsável pelos vícios da organização social e pelas consequências da ambição e do amor-próprio. (Allan Kardec, Livro dos Espíritos, nº 707.)   

 

         A acumulação de riquezas, característica da sociedade capitalista, já era contraditada por Jesus: “Não ajunteis tesouros na terra”, dizia ele (Mateus 6:19). A doutrina espírita, considerando ainda que essa acumulação gera o supérfluo de um lado e necessidades do outro, trata-a com bastante rigor:

 

Que pensar daqueles que açambarcam os bens da Terra para se proporcionar o supérfluo em prejuízo daqueles a quem falta o necessário? “Desprezam a lei de Deus e responderão pelas privações que tiverem feito suportar.” ... Os que vivem à custa das privações dos outros exploram os benefícios da civilização em seu proveito; não têm da civilização senão o verniz. (Allan Kardec, Livro dos Espíritos, nº 717 e nota.)

 

A exploração e a concorrência, que fazem o homem rivalizar em vez de se solidarizar, no mundo egoísta do capitalismo, vêm denunciadas com precisão na doutrina:

 

Com o egoísmo, o interesse pessoal passa antes de tudo, cada um puxa para si, cada um vê em seu semelhante apenas um antagonista, um rival que pode entrar em concorrência conosco, que pode nos explorar ou que nós podemos explorar; é de quem passar à frente de seu vizinho: a vitória é do mais esperto, e a sociedade, coisa triste de dizer, consagra frequentemente essa vitória, o que faz com que ela se divida em duas classes principais: os exploradores e os explorados. Disso resulta um antagonismo perpétuo que faz da vida um tormento, um verdadeiro inferno. (Allan Kardec, Viagem espírita em 1862, Discursos, nº III, § 2.)

 

Léon Denis não deixa de se expressar sobre o tema, mostrando que a mudança da sociedade – pautada nas verdadeiras leis de Deus – precisa ser no sentido de extinguir essa rivalidade, a exploração, e implantar a justiça na repartição dos bens:

A verdade sendo conhecida, compreender-se-ia que os interesses de uns são os interesses de todos, e que ninguém deve ser a presa dos outros. Daí, a justiça na repartição e, com a justiça, em vez de rivalidades odiosas, uma mútua confiança, a estima e a afeição recíprocas, numa palavra, a realização da lei de fraternidade, transformada na única regra entre os homens. Tal é o remédio que o ensino dos Espíritos traz aos males da sociedade. (Léon Denis, Depois da morte, cap. LV, “Questões sociais”.)

 

Sim, os Espíritos trazem, como sabemos, remédios não só aos males dos indivíduos, mas aos males da sociedade! Sem dúvida, os direitos trabalhistas também são artigos do código natural-divino:

 

Que pensar dos que abusam de sua autoridade para impor aos seus inferiores um excesso de trabalho? “É uma das piores ações. Todo homem que tem o poder de comandar é responsável pelo excesso de trabalho que impõe aos seus inferiores[2], pois transgride a lei de Deus.” (Allan Kardec, Livro dos Espíritos, nº 684.)

 

         Alguns que têm uma posição social mais ou menos elevada (por nascimento ou enriquecimento) costumam pensar que os pobres o são “por não trabalharem” como eles próprios, ou “por falta de esforço”. Mas Kardec, entrando na Economia Política, faz ver o erro desse pensamento, pois é preciso considerar o problema da estrutura socioeconômica, a qual não permite lugar de trabalho a todos:

 

Não é tudo dizer ao homem que ele deve trabalhar, é preciso ainda que aquele que espera sua existência de seu labor encontre de que se ocupar, e é o que não tem sempre lugar. Quando a suspensão do trabalho se generaliza, ela toma as proporções de um flagelo como a miséria. A Ciência Econômica busca o remédio no equilíbrio entre a produção e o consumo; mas esse equilíbrio, a supor que seja possível, terá sempre intermitências, e durante esses intervalos o trabalhador não deve, por isso, viver menos. (Allan Kardec, Livro dos Espíritos, nº 685, nota.)

 

Tendo isso em conta, enquanto a sociedade não mudar em direção ao socialismo, avançando na justiça social, as reivindicações trabalhistas são consideradas legítimas, como lemos nos filósofos espíritas:

Subscrevemos de bom grado as reivindicações legítimas da classe operária reclamando para o trabalhador sua parte de influência e de bem-estar, seu direito aos benefícios industriais e seu lugar ao sol. (Léon Denis, Socialismo e espiritismo, cap. I.)

O direito de greve é legítimo, é a arma do trabalhador contra as pretensões exageradas dos capitalistas, dos chefes de indústria. (Idem, cap. VIII.)

O socialismo, pois, sob sua face econômica e com as regras morais que estabelece para dignificar e elevar a classe trabalhadora, não pode deixar de se orientar nos mesmos princípios do Espiritismo. (Cosme Mariño, Conceito espírita do socialismo, 1ª conferência.)

 

Prosseguindo em assuntos da atualidade, sabe-se que há quem defenda, geralmente entre os conservadores, propostas políticas desumanas, como o armamento da população e o militarismo, a pena de morte e, coisa lamentável, até a tortura. Um espírita sério poderia aderir a qualquer dessas propostas? Temos o tratamento direto dessas questões na doutrina.

Sobre o porte de armas e o militarismo, vemos o quanto são propostas equivocadas e, pelo progresso, devem desaparecer:

 

“Que responsabilidade assumem aqueles que recusam a instrução às classes pobres da sociedade! Eles creem que com guardas [gendarmes] e a polícia, podem prevenir os crimes. Como estão errados!” (Allan Kardec, O Céu e o Inferno, pt. II, cap. IV, “Jacques Latour”, nº II.)

Um sinal característico dos costumes do tempo e dos povos está no uso do porte habitual, ostensivo ou escondido, de armas ofensivas e defensivas; a abolição desse uso testemunha o abrandamento dos costumes. (...) Hoje, a morte de um homem é acontecimento que emociona: outrora, não se lhe dava atenção. O Espiritismo levará embora estes últimos vestígios da barbárie, inculcando nos homens o espírito de caridade e de fraternidade. (Allan Kardec, Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XII, nº 16.)

Para que vossa Terra evolua e o homem possa subir sobre um outro planeta, será preciso renunciar às ideias militaristas. Uma nova era psíquica se prepara para vós. (...) Deveis vos inspirar em instituições do porvir, e não nas do passado. (Léon Denis, Socialismo e espiritismo, cap. VII.)

 

O mesmo se pode dizer da pena de morte (cujos defensores bradavam um lema que até recentemente estava na moda: “bandido bom é bandido morto”). Ela é claramente combatida pelo Espiritismo:

 

A pena de morte desaparecerá incontestavelmente, e sua supressão marcará um progresso na humanidade. Quando os homens forem mais esclarecidos, a pena de morte será completamente abolida sobre a Terra; os homens não terão mais necessidade de ser julgados pelos homens. (...) Há outros meios de se preservar do perigo, que não matá-lo. É preciso, aliás, abrir ao criminoso a porta do arrependimento e não fechá-la a ele. (Allan Kardec, Livro dos Espíritos, nº 760, 761.)

 

Finalizando nosso texto, mencionaremos a tortura – decerto, seria ocioso falar, se não houvesse alguns estultos defensores dela na atualidade. A tortura de Jesus, dos profetas e dos apóstolos, bem como dos filósofos e cientistas nos períodos de trevas, são mais que suficientes para fazer repeli-la; aliás, só o que ela significa já deveria causar repulsa a qualquer “homem de bem”, pela crueldade. Fica evidente que seria um absurdo o espírita apoiar ou aderir a quaisquer defensores dessa prática atroz:

 

Teu Espírito não se revolta lendo o relato (...) das torturas que se fazia sofrer o condenado, e mesmo o acusado para lhe arrancar, pelo excesso de sofrimentos, a confissão de um crime que frequentemente ele não tinha cometido? (Allan Kardec, Livro dos Espíritos, nº 763.)

Destruís mesmo a ideia do inferno tornando-a ridícula e inadmissível às vossas crenças, como o é aos vossos corações o hediondo espetáculo dos carrascos, das fogueiras e das torturas da Idade Média! O quê, então! É quando a era das represálias cegas está para sempre banida das legislações humanas que esperais mantê-la no ideal? (Allan Kardec, Livro dos Espíritos, nº 1009, comunicação de “Paulo, apóstolo”.)

Ajudai-vos, portanto, sempre em vossas provas respectivas, e não vos olheis jamais como instrumentos de tortura; esse pensamento deve revoltar todo homem de coração, todo espírita sobretudo; pois o espírita, melhor que todo outro, deve compreender a extensão infinita da bondade de Deus. (Allan Kardec, Evangelho segundo o Espiritismo, cap. V, nº 27.)

 

Inumeráveis outros assuntos sociais e políticos há na doutrina, que não pretendemos esgotar neste artigo. Apenas ensaiamos expor o quanto o Espiritismo, a política e as atualidades estão conexas, mostrando, ademais, como é importante o espírita conhecer a posição da sua doutrina para não cair em contradição. É essencial que o espírita se inteire dos problemas sociais de seu tempo e, com o auxílio da doutrina – que trata desses temas –, possa atuar de modo a melhorar a si mesmo e o seu meio, tendo em vista o progresso para um mundo melhor. Conhecendo as posições doutrinárias sobre temas sociopolíticos e econômicos e exercendo sempre sua livre razão, o espírita tem melhores condições de aderir a (e mesmo elaborar) projetos de sociedade, propostas políticas mais condizentes com seus ideais e com o horizonte de um mundo regenerado, que deixará para trás os erros do passado e de hoje. Assim como também estará mais apto a ser agente consciente da transformação da sociedade, buscando aumentar o bem comum e trazer a justiça e a solidariedade fraternal à Terra.

 


Referências bibliográficas

 

BÍBLIA de Jerusalém: nova edição, revista e ampliada. Trad. Gilberto da Silva Gorgulho, Ivo Storniolo, Ana Flora Anderson (Coord.). São Paulo: Paulus, 2002.

DENIS, Léon. Depois da morte. 3.ed. Trad. Maria Lúcia Alcântara de Carvalho. Rio de Janeiro: Celd, 2010.

_______. Socialismo e espiritismo (1924). Trad. Luiz Gustavo Oliveira dos Santos. Limeira, SP: Editora do Conhecimento, 2018.

KARDEC, Allan. L’Évangile selon le Spiritisme [O Evangelho segundo o Espiritismo]. 4.ed. Paris: Ledoyen, Dentu, Henri, 1868.

_______. Le Ciel et l’Enfer: ou la justice divine selon le Spiritisme [O Céu e o Inferno: ou a justiça divina segundo o Espiritismo]. Paris: Ledoyen, Dentu, Fréd. Henri, 1865.

_______. Le Livre des Esprits: philosophie spiritualiste [O Livro dos Espíritos: filosofia espiritualista]. 17.ed. Paris: Didier et Cie., 1869.

_______. Voyage Spirite en 1862 [Viagem espírita em 1862]. Paris: Ledoyen; Bureu de La Revue Spirite, 1862.

MARIÑO, Cosme. Conceito espírita do socialismo (1913). Trad. Luiz Gustavo Oliveira dos Santos. Limeira, SP: Editora do Conhecimento, 2022.

TROSTER, Roberto Luís; MORCILLO, Francisco Mochón. Introdução à economia: edição revisada e atualizada. São Paulo, Pearson Makron Books, 2002.



[1] Há manuais que já explicam a relativização necessária da noção de escassez: “Parece estranho a economia abordar a escassez como um problema universal, isto é, como um problema que afeta todas as sociedades. Isso se deve em razão de a economia considerar o problema como de escassez relativa, uma vez que os bens e serviços são escassos em relação ao desejo dos indivíduos. (...) Pode-se dizer que as necessidades são ilimitadas ou, de outra forma, que sempre existirão necessidades que os indivíduos não poderão satisfazer, ainda que seja somente pelo fato de os desejos tornarem-se ‘refinados’.” (Roberto L. Troster e Francisco Mochón, Introdução à Economia, Pearson Makron Books, p. 6-7.)

[2] Entendam-se os termos “superior” e “inferior”, na doutrina, assim como “forte” e “fraco”, com referência às posições ou classes sociais no capitalismo, isto é, como já vimos antes: os “exploradores” e os “explorados”, respectivamente, possuidores e trabalhadores.


segunda-feira, 27 de junho de 2022

Quanto Vale uma Vida? Por Alexandre Júnior.





         O capitalismo institui, a partir de suas estruturas cruéis e nefastas, o valor à vida humana. Desta forma, o Estado distribui seu capital e serviços a partir da valia que ele dá aos corpos beneficiados pelos mesmos. Ou seja: o valor dessa mesma vida depende da representatividade social a que pertence este sujeito!

         Entendemos facilmente por que o Brasil; é o 4° país no planeta que mais mata ativistas ambientais.

         Antes de qualquer altercação secundária: Quem matou e quem mandou matar Marielle Franco e seu motorista Anderson Gomes? Quem matou e quem mandou matar o indigenista Bruno Pereira e o jornalista Dom Phillips?

         Na esteira do capitalismo, o neoliberalismo, sua versão mais excludente, comunga com as práticas fascistas e com a produção da chamada necropolítica. Não desejam a vida ou o respeito à natureza, mas sim o lucro e o poder acima de tudo e de todos!

         Daí surgir a pergunta: Quanto Vale uma Vida?

         Onde estão concentrados os grandes investimentos do Governo na proteção social das pessoas? O aparelhamento do Estado visa servir a quem?

         Diante da realidade apresentada nestas reflexões iniciais, indagamos: Onde está o Movimento Espírita Brasileiro Hegemônico Federativo Institucionalizado, diante de todas estas realidades sociais aterrorizantes e perversas dos dias atuais? Em quantas notas o referido Movimento se manifestou sobre está realidade social? Qual o seu posicionamento diante deste descalabro? O silêncio e a omissão são formas de comunicar?

         Conclamamos reflexões que nos levem a entender que o espiritismo não é omisso às questões sociais de nosso tempo, bem como não é apolítico; senão vejamos o que nos fala Kardec. Comecemos com o Livro dos Médiuns (Kardec, 2017): “O Espiritismo, já o dissemos, se relaciona com todos os problemas da Humanidade. Seu campo é imenso e devemos encará-lo sobretudo quanto às suas consequências”. Ora, se o próprio Kardec fala abertamente sobre a relação do Espiritismo com todos os problemas humanos, de onde vem a negação desta realidade de uma parte muito significativa dos Espíritas brasileiros?

         Trazemos a discussão agora a partir de um artigo da Revista Espírita de Junho de 1868:

O Espiritismo conduz precisamente ao fim que se propõe todos os homens de progresso. É, pois, impossível que, mesmo sem se conhecer, eles não se encontrem em certos pontos e que, quando se conhecerem, não se deem - a mão para marchar, na mesma rota ao encontro de seus inimigos comuns: os preconceitos sociais, a rotina, o fanatismo, a intolerância e a ignorância. (Kardec, 2018),

 

Neste ponto específico, os preconceitos sociais são caracterizados por Kardec como um dos inimigos do progresso humano – compreendemos desta maneira, e por isso dizemos repetidas vezes: não haverá mundo de regeneração sem igualdade e justiça social, até vencermos estes inimigos comuns citados no texto acima.

Damos prosseguimento às nossas reflexões Kardecianas, agora usando A Gênese como base:  

 

“Com a reencarnação, desaparecem os preconceitos de raça e de casta, já que o mesmo Espírito pode renascer, rico ou pobre, grande senhor ou proletário, mestre ou subordinado, livre ou escravo, homem ou mulher. De todos os argumentos invocados contra a injustiça da servidão e da escravatura, contra a sujeição da mulher à lei do mais forte, não existe nenhum que supere em lógica, o fato material da reencarnação. Desse modo, assim como a reencarnação fundamenta numa lei da natureza o princípio da fraternidade universal, também fundamenta na mesma Lei o princípio da igualdade dos direitos sociais e, por consequência, o da liberdade. ” (Kardec, 2007)

 

            A reencarnação, aqui expressa pelo querido Professor Francês, não possui uma ideia em si mesma de criar castas e/ou justificar a opulência de uns e a total falta de outros, não valida a famigerada meritocracia, seja ela do mundo dos vivos ou do mundo dos mortos. Assim, (Júnior, 2022) nos diz: “Nesse sentido, nenhuma hegemonia cultural, econômica ou social opressora deverá encontrar a sua razão de existir na forma de se conceber a reencarnação, tendo o Espiritismo como referencial teórico”.

         Compreendemos que a partir da reencarnação em uma perspectiva Espírita, a ideia é que todos, todas e todes tenham as mesmas possibilidades, partindo o Espiritismo da visão de um ser integral, de proporcionar-lhes possibilidades para a ampla ação de vida, para que todas as suas potencialidades possam ser motivadas a serem vivenciadas e ampliadas no espiritual, no afetivo, no emocional, no material e no social.

         Assim, (Júnior, 2022), continua:

 

A reencarnação tem uma ação educativa em vez de punitiva. Divina e diametralmente oposta à demoníaca; libertadora e antagônica a qualquer tipo de postura aprisionante. Sua ação sobre nós é de possibilidades de aprendizado através de sucessivas oportunidades, nas quais vamos, por intermédio dos embates sociais, concordando e discordando, formatando-nos como cidadãos cósmicos, seres universais, criaturas divinas, constituindo-nos naquilo que somos. (Júnior, 2022),

 

            É importante posicionarmos os nossos pensamentos sobre a reencarnação, já que a mesma robustece, valida e legitima a nossa busca por igualdade e justiça social a partir da compreensão do Espiritismo.

         Damos prosseguimento às nossas digressões Kardecianas, desta vez usaremos O Livro dos Espíritos, na pergunta 806. “A desigualdade das condições sociais é uma lei natural?  Não, ela é obra do homem e não de Deus.” Compreendemos que não sendo essas desigualdades e injustiças sociais ações divinas, cabe portanto a quem as criou o dever de extirpá-las! Desta maneira, as ações de enfrentamento às causas dessa problemática precisam e devem ser amplamente combatidas – e não apenas os seus efeitos! Combater a fome é extremamente necessário e urgente. Mas perguntar e entender por que tantas pessoas passam fome é imprescindível.

         Assim vamos estabelecendo de que maneira as relações sociais vão se instituindo e como produção de políticas públicas que contemplem as diversas demandas de nosso povo são importantes, levando em consideração as especificidades construídas a partir das diferenças culturais e identitárias que nos formam!

         Ainda no Livro dos Espíritos, está a pergunta 799, com sua respectiva resposta:

 

Por que meios pode o Espiritismo contribuir para o progresso? “Ao destruir o materialismo, que é uma das chagas da sociedade, ele faz os homens compreenderem onde estão os seus verdadeiros interesses. Por não estar mais velada pela dúvida, o conhecimento da vida futura será apreendido pelo homem, que entenderá que pode assegurar o seu futuro pelo próprio presente. Ao destruir os preconceitos de seita, casta e cor, o Espiritismo ensina aos homens a grande solidariedade que deve uni-los como irmãos. ” (Kardec, 2007)

 

            Possuímos um enorme desafio, a partir do que chamaríamos de um Espiritismo espiritualista – embora pareça redundância – instituirmos a possibilidade de nos vermos irmãos, sem negar as diferenças que nos formam. O não respeito a este pensamento torna o Movimento Espírita Brasileiro Hegemônico Federativo Institucionalizado materialista, assim como nos diz Alexandre Júnior, no seu livro Espiritismo, Educação, Gênero e Sexualidades: Um Diálogo com as Questões Sociais:

 

O movimento espírita brasileiro é materialista quando valida os preconceitos, não luta contra eles de forma orgânica e não tem, por exemplo, uma campanha “oficial” contra os preconceitos. É materialista quando institui em suas relações sociais internas e externas o processo de hierarquização dos corpos, no seu “modus operandi” (Júnior, 2022)

 

            Chegamos a estas reflexões para podermos compreender um dos motivos pelos quais, segundo nossas pesquisas, o referido Movimento convive com as desigualdades e injustiças sociais e não possuí ações discursivas, pedagógicas ou práticas para lidar com as mesmas. E desta forma, torna-se incapaz de ajudar na formação de um Ser Espiritual dentro da cultura do seu tempo.

         Este silêncio promovido pelo Movimento Espírita Brasileiro Hegemônico Federativo Institucionalizado é ensurdecedor, e como vimos, não se sustenta em Kardec. Reproduz em suas práticas as normas sociais vigentes, guiada muitas vezes por um religiosismo que beira o fundamentalismo, e que por sua vez é alimentado por um conservadorismo extremo. E este processo não coaduna com as práticas do nosso guia e modelo, Jesus de Nazaré.

         Será que o Jesus dos Espíritas verdadeiramente “não comprou uma pistola, porque em sua época não existia?”, ou será que ele defende a tese de que “bandido bom é bandido morto?” Ou ainda que direitos humanos serviram para “humanos direitos?” Ou ele teve 4 filhos e no 5º “fraquejou”, daí nascendo uma mulher? Será que ele diria à mulher adúltera: “Não te estrupo por que você não merece?”.  Ou talvez: “Meus filhos não namorariam uma negra por que foram bem educados!”. Estas são falas em voga na atualidade – seriam elas relacionadas verdadeiramente com o Evangelho?

         Seria possível conjugar em uma mesma frase Lucas 10:27:  “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todas as tuas forças e de todo o teu entendimento; e: Amarás o teu próximo como a ti mesmo”, mas “bandido bom é bandido morto”?

Ou ainda consoante expresso em Mateus 25, 35:36. “Porque tive fome, e me destes de comer; tive sede, e me destes de beber; era forasteiro, e me hospedastes; estava nu, e me vestistes; enfermo, e me visitastes; preso, e fostes ver-me”, e assim “façamos arminha com as mãos” e defendamos a necropolítica, a política armamentista. Ou que ainda não nos incomodemos com os assassinatos de Chico Mendes, Irmã Dorothy Stang, Marielle Franco, Anderson Gomes, Miguel Otávio, Dandara dos Santos, Evaldo Rosa e tantas anônimas e anônimos que tombam com seus corpos transgressores sem vida, para que os “homens de bem” tenham bons sonhos!

         Precisamos construir diálogos que se sustentem teoricamente. Precisamos viver a “Religião da Intimidade”, “a Fé Raciocinada”; mas se para vivermos alguma religião precisarmos ser insensíveis às dores de almas que pensam diferentes de nós; se para reverenciar nosso deus negamos vidas, e nos fechamos ao amor pelos diferentes, há algo de errado em nossa forma de adorar!

         Nos diz Freire: “A educação é um ato de amor, por isso, um ato de coragem. Não pode temer o debate. A análise da realidade não pode fugir à discussão criadora, sob pena de ser uma farsa”.

         Nas arenas romanas, os desafios eram não abjurar a Jesus de Nazaré, e se entregar em sacrifício. As arenas do campo sócio-político-religioso vitimaram O Cristo numa crucificação infame. Já nos dilemas dos dias de hoje, na “nossa Pátria mãe gentil, Choram Marias e Clarices no solo do Brasil”, pois “num tempo, página infeliz da nossa história, passagem desbotada na memória das nossas novas gerações, dormia a nossa pátria mãe tão distraída, sem perceber que era subtraída em tenebrosas transações”.

         E nós apenas sentimos e quando nos permitem, balbuciamos baixinho, para que não nos escutem: “Como é difícil acordar calado, se na calada da noite eu me dano, quero lançar um grito desumano, que é uma maneira de ser escutado. Esse silêncio todo me atordoa. Atordoado eu permaneço atento. Na arquibancada pra qualquer momento. Ver emergir o monstro da lagoa”.

         Aludindo um refletir que seja tal qual fumaça em fresta de porta, que se apresente forte como uma esperança que faz florescer um “Esperançar”, que ame corajosamente, apesar dos reveses que fazem com que tombem os corpos que ousam amar o amor, a natureza Amazônica, e as humanidades, e que não atende aos rótulos do convencionalismo extremamente fundamentalista, tacanho, perverso e excludente!

         Nos inspiremos no amor subversivo de Jesus de Nazaré, para todas, todos e todes, e sem acepção. Aceitemos a licença poética do cancioneiro e nos permitamos compreender que segundo ele, o poeta, “o Amor é um Ato Revolucionário".

 

 

Referências Bibliográficas

 

A Gênese (Kardec, 2018) p. 58 KARDEC, Allan. A gênese. Federação Espírita André Luiz, (FEAL), 2018.

Bíblia de Estudo Perguntas e Respostas MC. São Paulo, 2016.  Lucas10:27; Mateus 25,35:36.

Espiritismo, Educação, Gênero e Sexualidades. Um diálogo com as Questões Sociais. JÚNIOR, Alexandre,  Recife: CBA Editora, 2022. 

O livro dos espíritos: princípios da doutrina espírita. Livraria Allan Kardec Editora, 2007.

O Livro dos Médiuns (Kardec, 2017). KARDEC, Allan. O livro dos médiuns, EDICEL, 2017

Pedagogia da Autonomia. (Freire, 2011) FREIRE, Paulo. São Paulo: Editora Paz e Ter[1]ra, 2011.

Revista Espírita – junho de 1868, (Kardec, 2018),  KARDEC, A. Revista Espírita. Tradução de Julio Abreu Filho. Livraria Allan Kardec Editora, (LAKE). 2018.

 

Músicas

O Bêbado e o Equilibrista. Letra de Aldir Blanc e João Bosco.

Bastidores. Letra de Chico Buarque.

Cálice. Letra de Chico Buarque.

O Amor é Um Ato Revolucionário. Letra de Chico César.

segunda-feira, 9 de maio de 2022

ESPÍRITAS, AMAI-VOS, INSTRUÍ-VOS E POLITIZAI-VOS!


Por: Rodrigo Sales
 


Ao longo das últimas décadas circulou entre os espíritas brasileiros a ideia de que o Espiritismo é uma doutrina apolítica para responder ao questionamento de que os assuntos sobre Espiritismo e Política não poderiam se misturar, dialogar ou provocar compromissos de atuação na sociedade através dos movimentos sociais e da luta pela garantia e manutenção de direitos advindos desses mesmos movimentos.

O fazer espírita, segundo os que defendem um Espiritismo apolítico, deveria ser restrito ao estudo das obras de Allan Kardec e o centro espírita se tornaria o lugar mais adequado para construir o chamado “trabalho espírita” que também passou a ser entendido através da prática de palestras públicas com um mesa na tribuna em que um único palestrante fala por quase uma hora, aplicação de passes e fluidoterapia, seguido da água fluidificada, atendimento fraterno, tratamento espiritual da obsessão, evangelização infantojuvenil, distribuição de sopa e cestas básicas, livraria e biblioteca junto com bazar e cantina de lanches, campanha do quilo e a chamada divulgação doutrinária com a publicação de textos, vídeos e artigos em jornais e redes sociais falando sobre o Espiritismo e o evangelho de Jesus.

Nessa seara de afazeres espíritas, recheada de muitos trabalhos, falar de Política e seus desdobramentos nas questões sociais tornou-se algo proibido, evitado e silenciado ao ponto de ser enquadrado como assunto antidoutrinário.

O espírita encarnado ou desencarnado que defende e divulga a ideia de que o Espiritismo é apolítico e ajuda a difundir o pensamento de que falar de Política é algo antidoutrinário, evidencia o quanto que desconhece sobre o que de fato é o fazer espírita a partir da noção fundamental de Espiritismo apresentada por Allan Kardec. E a razão desse desconhecimento se dá pelo fato de não saber o que é algo “apolítico” e “antidoutrinário” e ainda correlacionar essas palavras com um sentimento de advertência de modo a evitar o diálogo sobre Espiritismo e Política.

Apolítico, segundo o dicionário, é tudo aquilo que não é político, que não apresenta significado político, é aquilo ou aquele que não se interessa por política ou por ela tem aversão. Já antidoutrinário seria significado também pelo dicionário como tudo aquilo que está em desacordo com uma certa doutrina. Além disso, o próprio conceito de Política precisa também ser esclarecido de modo a espantar o fantasma que essa palavra representa.

No imaginário de muitos espíritas encarnados e desencarnados, a Política é entendida como sinônimo de politicagem o que acaba trazendo para essa palavra o sentido de algo sujo, errado, imoral, não ético ou que vibratoriamente não é bom para as energias da casa espírita e nem para a mente dos ditos médiuns que podem se desequilibrar e serem assediados por maus Espíritos que encontrariam brechas se assuntos ligados à Política fossem trazidos e abordados pelo Espiritismo. Quando, em verdade, a Política é uma ciência da sociedade, fruto de saberes humanos que foram desenvolvidos e aprimorados ao longo da História, acompanhando a evolução das sociedades e da própria compreensão dos seres humanos sobre as necessidades que possuem nos grupos sociais em que estão inseridos e que compõem as nações ao redor de todo o planeta Terra.

Política é uma arte de pensar e estruturar as instituições oferecedoras de serviços que objetivam atender as demandas e necessidades das pessoas que se relacionam socialmente. Em outras palavras, a Política é a expressão pensada, falada, estruturada, registrada e sentida dos Espíritos encarnados e desencarnados ao longo da História, nas diversas sociedades com seus aspectos culturais característicos. É, portanto, fruto das escolhas dos Espíritos encarnados com todas as suas boas ou más influências por parte dos Espíritos desencarnados.

Devidamente conceituadas estas palavras, façamos agora o exercício de questionar se de fato o Espiritismo não pode dialogar com a Ciência Política, como muitos defendem. Consultando o próprio Kardec, como pedem aqueles que defendem um Espiritismo apolítico, questiona-se como podemos estudar a pergunta 573 de O Livro dos Espíritos quando Kardec busca entender em que consiste a missão dos Espíritos encarnados, cuja resposta fala sobre a instrução dos homens para auxiliar com o progresso desses e complementa falando sobre o melhoramento das instituições por meios diretos e materiais, e não vermos o conceito de Política presente?

Ainda dessa obra, como estudar em sua questão 818, que aborda a inferioridade moral da mulher em certas regiões como sendo o resultado do predomínio injusto e cruel que sobre ela assumiu o homem e também resultado das instituições sociais e do abuso da força sobre a fraqueza, e não vermos de forma clara o conceito de Política presente?  Sobretudo a Política de acolhimento e proteção às mulheres e a luta pela garantia dos direitos civis dessas mulheres de modo a tornar justa e equivalente a posição social ocupada por elas e os homens, que historicamente fizeram as leis só para si e venderam a ideia de que a mulher é o sexo frágil, sendo este último pensamento uma imensa tolice de homens moralmente pouco adiantados que formatam seus direitos através da força e da opressão.

Como estudar a questão 797, do mesmo livro, sobre a reformulação das leis da sociedade cuja resposta central passa pelo reconhecimento de que é pela força das coisas e pela influência das pessoas de bem que guiam a marcha do progresso e que são essas as responsáveis a reformular tantas leis que ainda são cruéis e injustas e que validam desigualdades e encobertam violências dos mais diversos matizes, e não vermos a flagrante presença da Política como essência do ensinamento? Ou ainda, quando vemos o conceito de que todos os Espíritos possuem fundamentalmente e primariamente o direito à vida, na pergunta 880, e não reconhecermos o compromisso político que se lança sobre os ombros dos espíritas para garantir uma vida com qualidade para mulheres, crianças, idosos, negros, indígenas, gays, lésbicas, transexuais, travestis, pobres, periféricos, suburbanos e pessoas em condição de rua e extrema miséria?

É tão nítido o potencial dialógico do Espiritismo com a arte Política e com todos os desdobramentos possíveis através das temáticas presentes na sociedade, que nem de longe, nem no pior dos pesadelos, nem na mais complexa obsessão, nem na maior obscuridade umbralina se pode admitir chamar o Espiritismo de apolítico ou que dialogar sobre Política seja considerado assunto antidoutrinário. O Espiritismo nunca foi e nunca será apolítico porque o fazer espírita é por si só um fazer político que visa atuar no mundo trazendo a perspectiva do Espírito imortal de modo a contribuir com a espiritualização dos seres humanos.

O Espiritismo almeja mudar hábitos culturalmente engessados em crenças materialistas e inaugurar uma nova fase na humanidade marcada pela renovação social em que os homens e mulheres, espiritualizados e conscientes das suas missões enquanto encarnados, assumam as instituições presentes na sociedade direcionando-as para o atendimento das demandas de um mundo que clama por justiça e igualdade social e sobretudo por amor, o mais elevado de todos os sentimentos. 

Sendo assim, conclamemos: Espíritas, amai-vos, instruí-vos e politizai-vos hoje, amanhã e sempre. Assim seja!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Referencial Bibliográfico

 

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos: princípios da doutrina espírita. Livraria Allan Kardec Editora, 2007.

 

 

 

 


sexta-feira, 22 de abril de 2022

Contribuições Para um Pensar Decolonial nos Estudos Espiritas

 



Por Lídia Pimentel


Lidia Valesca Pimentel[1]

 

Esse artigo nasceu de uma inquietação epistemológica acerca das bases da modernidade, de sua visão eurocêntrica de homem e a influencia do colonialismo no movimento espirita, desde Kardec até os dias atuais. O uso de termos como “selvagem”, “primitivo”, “superior” em vários textos Espiritas e as várias alegações de elementos racistas tem vindo à baila.   

Vivemos em um momento oportuno para introduzir uma reflexão decolonial, em meio a mudanças no movimento espirita brasileiro, com o aparecimento de coletivos progressistas trazendo a leitura critica de obras e autores esquecidos, numa dinâmica dialógica com a ciências sociais e a filosofia e os seus posicionamentos frente aos acontecimentos da atualidade.  

Para compreender a importância do pensamento decolonial é necessário, inicialmente, compreender o que significou o pensamento colonial e depois a “virada de chave”, originada, ainda no século XX, com a crise de paradigmas da modernidade e a irrupção de um pensamento decolonial, crítico do colonialismo. 

O pensamento colonial apareceu na modernidade não somente como a expansão territorial dos estados europeus, com a crise do capital, na segunda metade no sec. XIX. Se constituiu como forma ideológica de entendimento de homem como ser universal, a imagem e semelhança do europeu, com padrão de civilidade típicos da cultura ocidental, legitimados a partir de conceitos evolucionistas, em escalas de evolução social e moral, elaboradas pelos próprios colonizadores.

Os avanços da biologia com as pesquisas de Charles Darwin, com grande projeção de sua obra “A Origem das espécies em 1859”, influenciou o pensamento positivista em sua visão de sociedade, os colonizadores modernos criaram um discurso sobre O outro colonizado como inferior, legitimando a exploração, como ideia de progresso e “de missão civilizatória”. Desse modo, podemos dizer que a colonialidade não é uma questão apenas da administração das colônias, mas uma epistemologia que influenciou as ciências humanas e a filosofia, tanto no plano teórico como metodológico. 

Foi assim que o positivismo deu suporte ideológico para que essas sociedades fossem consideradas primitivas e seus povos inferiorizados, numa escala onde o Europeu foi considerado moralmente superior, excluindo o conhecimento das tradições não ocidentais, como diz Walter Mignolo:    

“Colonialidade” equivale a uma “matriz ou padrão colonial de poder”, o qual ou a qual é um complexo de relações que se esconde detrás da retórica da modernidade (o relato da salvação, progresso e felicidade) que justifica a violência da colonialidade. E descolonialidade é a resposta necessária tanto às falácias e ficções das promessas de progresso e desenvolvimento que a modernidade contempla, como à violência da colonialidade. (MIGNOLO, 2017 p. 13)

 

A agenda colonial produz a descredibilidade de inúmeras formas de existência e de saber, como também produz a morte, seja ela física, através do extermínio, ou simbólica, através do desvio existencial (SIMAS e RUFINO, 2018 ) Nasce de um discurso sobre o outro com subalterno e inferior. Isso não dá para aceitar!    

O pensamento pós colonial é uma tendencia epistemológica nas ciências sociais desde a emancipação das coloniais africanas que propõe uma reflexão crítica das epistemologias modernas, que propuseram uma racionalidade ocidental, como modelo hegemônico de cultura e razão.  Como diz Santos (2014) Uma “epistemologia do sul”. Um modo de pensar que leva em consideração os saberes locais, numa metáfora do sul não como espaço geográfico, mas como modelo contra hegemônico do pensamento norte global.  Aceitação de outras cosmovisões, como modelos intuitivos de pensar, representar e viver no mundo, como as dos indígenas brasileiros, a de tribos africanas, os povos da índia entre tantos outros na vastidão de manifestação da cultura humana.   

Alan Kardec, assim como outros pensadores espiritas do seu tempo, são herdeiros de uma filosofia moderna colonial e não teria como ser diferente, dado o seu contexto.  O modelo de ciência no tempo de Kardec tentava emancipar-se do tradicionalismo e dogmatismo medieval e seus valores arcaicos. O Espiritismo de Kardec, no plano filosófico, recebeu influência do iluminismo e sua visão de racionalidade universal. Numa perspectiva cientifica, foi influenciada pelas ciências naturais e os nascentes estudos sobre a psiquismo humano.

No entanto, podemos afirmar que Alan Kardec ultrapassou a ciência do seu tempo, trazendo o “paradigma do espirito” e uma crítica as ciências a quem chamou de materialistas, por reduzir o conhecimento apenas ao que pode ser validado a partir de experimentos comprovados materialmente. O pensamento espirita vai costurar elementos complexos advindos das respostas dos Espíritos, em sua maioria cristãos, com a interpretação de Kardec e seu próprio entendimento, numa perspectiva dialógica entre os conhecimentos de seu tempo e os valores de uma ética universal dada pelos espíritos.   

A diferenças entre os povos para os franceses era chamada de civilizacion, como o conjunto dos aspectos da vida material e cultural de um grupo social em qualquer estágio de seu desenvolvimento.  Para os Espíritos em resposta a Kardec

A civilização tem os seus graus, como todas as coisas. Uma civilização incompleta é um estado de transição que engendra males especiais, desconhecidos no estado primitivo, mas nem por isso deixa de constituir um progresso natural, necessário, que leva consigo mesmo o remédio para aqueles males. A medida que a civilização se aperfeiçoa, vai fazendo cessar alguns dos males que engendrou, e esses males desaparecerão com o progresso moral. (O livro dos Espiritos questão 793)

 

Os termos primitivo, bem como, selvagem, inferior ao se referir aos povos “não civilizados” ou de uma civilidade “incompleta” está alçada numa visão de moral. Seria essa a mesma moral pensada pelo colonizador?

Os Espíritos esclarecem:

Vós a reconhecereis pelo desenvolvimento moral. Acreditais estar muito adiantados por terdes feito grandes descobertas e invenções maravilhosas; porque estais melhor instalados e melhor vestidos que os vossos selvagens; mas só tereis verdadeiramente o direito de vos dizer civilizados quando houveres banido de vossa sociedade os vícios que a desonram e quando passardes a viver como irmãos, praticando a caridade cristã. Até esse momento não sereis mais do que povos esclarecidos, só tendo percorrido a primeira fase da civilização.

 

Kardec escreve ainda em uma nota essa questão, enfatizando a dimensão ético-moral:

De dois povos que tenham chegado ao ápice da escala social, só poderá dizer-se o mais civilizado, na verdadeira acepção do termo, aquele em que se encontre menos egoísmo, cupidez e orgulho; em que os costumes sejam mais intelectuais e morais do que materiais; em que a inteligência possa desenvolver-se com mais liberdade; em que exista mais bondade, boa-fé, benevolência e generosidade recíprocas; em que os preconceitos de casta e de nascimento sejam menos enraizados, porque esses pré-juízos são incompatíveis com o verdadeiro amor do próximo; em que as leis não consagrem nenhum privilégio e sejam as mesmas para o último como para o primeiro; em que a justiça se exerça com o mínimo de parcialidade; em que o fraco sempre encontre apoio contra o forte; em que a vida do homem, suas crenças e suas opiniões sejam melhor respeitadas; em que haja menos desgraçados; e, por fim, em que todos os homens de boa vontade estejam sempre seguros de não lhes faltar o necessário

 

Ainda na mesma questão, uma nota de Herculano Pires, tradutor dessa edição:

 Será essa a civilização cristã que o Espiritismo estabelecerá na Terra. Como se vê pelas explicações dos Espíritos e os comentários de Kardec, a civilização incompleta em que vivemos é apenas uma fase de transição entre o mundo pagão da Antiguidade e o mundo cristão do Futuro. Nos costumes, na legislação, na religião, na prática dos cultos religiosos vemos a mistura constante dos elementos do paganismo com os princípios renovadores do Cristianismo. Cabe ao Espiritismo a missão de remover esses elementos pagãos para fazer brilhar o espírito cristão em toda a sua pureza.

 

O que deduzir do significado de “costumes mais intelectuais do que materiais”? Como interpretar os dizeres de Herculano Pires? O que significa remover os elementos do paganismo?  Que elementos são esses? O pensamento de Pires soa flagrantemente colonialista, de uma visão de cristianismo como religião superior. Isso deve ser assim?

Admitir a influência de uma visão colonialista nessa interpretação é fundamental para poder ultrapassá-la. Se considerarmos que a ideia de costume e leis são próprias de cada cultura e tem manifestações históricas próprias, cada civilização teve o seu próprio processo civilizador e não poderíamos classificar como superior ou inferior, mas como participe de seu próprio processo de mudança, rumo a uma ideia de progresso moral intrínseca ao próprio conceito.   Problematizar a ideia de uma escala civilizatória para admitir que o processo civilizatório é  necessário para ultrapassar o orgulho do ocidente, sua noção de desenvolvimento material, para adentrar as noções princípios ético-morais,  como esclareceram os espíritos a Kardec.

As Ciências Sociais, nascente no mesmo tempo de Kardec, nasceu sob os auspicio de uma epistemologia colonialista e com forte influência do darwinismo social. Todavia, as Ciências Sociais realizaram sua própria critica, se abriram para as perspectivas pós coloniais. Assim pode ser os estudos espiritas? Essa é a questão posta, as quais não é mais possível jogar para baixo do tapete, mas encará-la como dilema epistemológico, que só poderá ser resolvido com a superação dogmáticas das obras básicas.

A decolonialidade é como uma chave que pode abrir as portas de uma auto reflexão do movimento espirita e ajudar os seus estudiosos a revisitar criticamente a influência do paradigma racionalista da ciência moderna e do positivismo, método hegemônico na ciência do Sec. XIX, para admitir que o Espiritismo é um conhecimento produzido a partir de fontes europeias, com a influência de espíritos cristãos, com os valores ocidentais sobre homem, Deus e sociedade.  

Se no passado o Espiritismo acompanhou as ciências do seu tempo, nos dias atuais, pode abrir-se aos dilemas do sec. XXI, continuar a produção do saber espirita, iniciada por Kardec, entender as emergências do novo tempo, seguindo os passos que o próprio mestre de Lion ensinou, alinhar a Ciência Espirita ás dinâmicas da própria ciência.

A superação da mentalidade colonial abre as portas do pensamento para o encontro de interculturalidade e para o diálogo interreligioso que rejeita o discurso sobre o outro, valoriza a auto determinação identitária. Proporciona um encontro entre sujeitos, suas diferenças, tendo em vista a diversidade do mundo.

A decolonialidade nos leva a compreensão de uma humanidade ampla, com experiências reencarnatórias plurais, vividas em corpos sociais diversos, com visões de mundo distintos e multiculturais. No plano da mediunidade, admite a importância de outras narrativas de espíritos que viveram realidades não europeias e não cristãs, admitindo como espiritualidade válida na grande rede de interconexão existente. Alcançar uma ideia de universalidade constituída por culturas diferentes, respeitadas em suas manifestações. 

A decolonialidade pode lançar luz as práticas espiritas a partir do pressuposto que a ação e o pensamento perfazem o sentido do fazer espirita conjuntamente.  A ação espirita deve ser manifestada com as bases ética do bem comum, do respeito as diferenças dos povos, da democracia, da tolerância e da cultura de paz entre as nações, sem superioridade econômica e ou cultural, estabelecendo a cooperação mutua. Os povos originários, por exemplo, têm muito a ensinar aos povos ocidentais

Um fazer que propõe uma pedagogia, ao invés de uma evangelização que cria a caricatura do “evangelizando”, depositário de um conhecimento, desconsiderando os aprendizados já existentes e a realidade em que vivem. Sujeitos ativos da aprendizagem, com sua bagagem cultura local e cosmologia própria. Uma pedagogia da autonomia, como ensina Paulo Freire, com os valores da emancipação, da troca de saberes e uma construção partilhada do mundo.

Uma ação fraterna e solidária que supere as práticas assistencialistas que objetifica as pessoas. Percebe o outro não como um “necessitado” ou “assistido”, mas como um sujeito de direitos.  Cidadania ativa, transformadora da sociedade rumo a justiça social e a igualdade entre todos. Uma espiritualidade viva que integre o sentir, o pensar e o fazer com bases éticas do cuidado e do bem comum.    

Por fim, é preciso esclarecer que o pensamento decolonial não nos dá um roteiro pronto para os estudos espiritas, mas aponta para as bases epistemológicas, um jeito de pensar que supere o poder de um conhecimento sobre o outro, supremacia religiosa, filosófica ou cientifica, que possa engendrar como únicos ou verdadeiros.

 

Referencias:

KARDEC, Alan. O livro dos Espiritos. Tradução de José Herculano Pires. Lake: São Paulo, 2013.

MINOLO, Walter D. Colonialidade o lado mais obscuro da modernidade. Revista brasileira de ciências sociais - vol. 32 n° 94 – Tradução de Marco Oliveira. 2017.

SIMAS, Luiz Antônio; RUFINO, Luiz. As ciências encantadas da macumba. Mórula: Rio de Janeiro, 2018. 

SANTOS, Boaventura de Sousa, MENEZES, Maria Paula. Epistemologias do Sul. Edições Elmedina, Coimbra, 2009.

 

 

 

 



[1] Doutora em Sociologia. Professora Universitária. Espirita, membro do Coletivo Girassois – Espirita pelo Bem Comum.

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