quarta-feira, 23 de março de 2022

Os ventos revolucionários que sopravam da França, em 1789, invocavam três palavras que se tornaram paradigmáticas no vocabulário dos direitos humanos: Liberdade, igualdade e fraternidade. Esta última, não era vista propriamente como um “direito”, mas como uma condição esperada nas relações sociais. Numa época de nobres, burgueses, servos e escravos, cuja tradição naturalizava a terrível desigualdade social, o pensamento iluminista e os ideais de 1789, deixariam significativas contribuições aos séculos seguintes.

Robespierre, advogado e político radical, em seu “Discurso sobre a organização das guardas nacionais”[2], publicado em dezembro de 1790, enfatizava o lema: “Liberdade, igualdade e fraternidade”, como palavras que deveriam ser escritas na bandeira da França. Mais do que estampar essas palavras em bandeiras nacionais, é imprescindível construir uma sociedade mais fraterna, com justiça social e com leis que resguardem, de fato, a dignidade humana e o bem comum.

Allan Kardec, cujo nome verdadeiro era Hippolyte Léon Denizard Rivail nasceu em 1804, ano em que Napoleão Bonaparte se autoproclamou imperador dos franceses. Sua formação intelectual se deu com base na cultura filosófica, científica e humanista de sua época.[3]  Kardec, como sabemos, foi o fundador de uma filosofia singular, espiritualista, racionalista, humanista, progressista, que descortinou e naturalizou a dimensão espiritual do ser humano.

Engana-se, no entanto, quem vê no espiritismo uma via de fuga diante dos desafios sociais, cujo foco é, tão somente, os problemas metafísicos. A discussão sobre os direitos naturais, os direitos humanos e justiça social, estão presentes no conjunto da obra kardequiana. Em O Livro dos Espíritos, considera-se que o primeiro de todos os “direitos naturais” do ser humano é o direito à vida, uma verdade autoevidente, um princípio inalienável.[4] Reconhecendo, ainda, que para sobreviver é necessário ao ser humano, possuir condições materiais de existência e de dignidade.[5]

Na terceira parte de O Livro dos Espíritos, intitulada: “As Leis Morais”, encontram-se o que podemos chamar de “teses sociais espíritas” que refletem sobre as funções do trabalho, da dinâmica social, da igualdade, da liberdade, do progresso, da justiça, amor e caridade. Os direitos humanos estão, inexoravelmente, no centro dessas discussões. Ao tratar, por exemplo, da “Lei de Liberdade”, o espiritismo se posiciona na defesa da liberdade de pensamento, de consciência e de crença, contra qualquer forma de intolerância e de escravidão:

 

Em sua acepção mais vasta, o livre-pensamento significa: livre-exame, liberdade de consciência, fé raciocinada; simboliza a emancipação intelectual, a independência moral, complemento da independência física; não quer mais escravos do pensamento, pois o que caracteriza o livre-pensador é que este pensa por si mesmo, e não pelos outros; em outros termos, sua opinião lhe é própria. Assim, pode haver livres-pensadores em todas as opiniões e em todas as crenças. Neste sentido, o livre-pensamento eleva a dignidade do homem, dele fazendo um ser ativo, inteligente, em vez de uma máquina de crer.[6]

 

Não era nada fácil, ainda no século XIX, defender a liberdade de expressão e de crença.[7] Nota-se no pensamento de Kardec, uma clara influência dos valores que permeavam a cultura progressista de sua época. No entanto, o espiritismo nascente oferecia novos elementos para essa cultura. O progresso da humanidade, na perspectiva da nova filosofia, estaria vinculado ao melhoramento intelectual e moral dos indivíduos, daí decorrendo o aperfeiçoamento da legislação humana e das relações sociais.[8] Na medida em que melhor conhece as “leis naturais”, que regem o Universo, o mundo físico e espiritual, o ser humano, pensava Kardec, tende a desenvolver um nível mais elevado de humanização. Essa ideia jamais deveria implicar, como veremos, num processo de alienação política dos indivíduos.

Na Revista Espírita, em março de 1871, é publicado um texto póstumo de Allan Kardec, que havia falecido em 31 de março de 1869. O título: “Liberdade, igualdade e fraternidade”[9], retomava ao ideário de uma nova ordem social. No texto, ele pondera que: “A fraternidade, na rigorosa acepção da palavra, resume todos os deveres do homem para com os semelhantes. Significa: devotamento, abnegação, tolerância, benevolência, indulgência”. Uma espécie de “programa”, segundo ele, capaz de se contrapor ao “egoísmo social”, um dos grandes males da humanidade.

Essa, de fato, parece ser uma das grandes questões que permeia o que Kardec chamou de “felicidade social”. Como é possível uma sociedade funcional, solidária e humanizada onde cada um só pensa em si mesmo e/ou em seu grupo? Obviamente, o sentido de “igualdade” numa sociedade disfuncional e desumanizada sobrevive com base nas legislações, mas permanece distante, na prática, da ideia de justiça social. A desigualdade das condições sociais, os preconceitos de classes, raciais e de gênero, são alguns exemplos vigorosos dessa lamentável e histórica realidade. Kardec, aponta um dos principais “inimigos” da igualdade: “O orgulho, que trabalha por ser o primeiro e por dominar; que vive de privilégios e de exceções e que aproveitará a primeira ocasião para destruir a igualdade social (...). Ora, sendo o orgulho uma das chagas sociais, é evidente que nenhuma sociedade terá a igualdade sem arrasar primeiro essa barreira”.[10]

Essa problemática é mais complexa, não se limitando apenas a uma perspectiva pessoal de melhoramento. Recordemos que a ideia de igualdade foi um dos pilares da declaração universal dos direitos do homem e do cidadão, uma “utopia possível”. Aliás, um mundo cujos alicerces seriam igualdade e fraternidade já havia sido pensado pelo humanista inglês Thomas Morus, em seu livro “Utopia”, escrito em 1516. Em contraponto à sociedade fortemente excludente de sua época, Morus imaginou uma ilha onde seus habitantes viviam pelo bem comum, sem classes, sem propriedade privada, sem exploração de uns sobre outros. Possivelmente, Morus tenha sido um dos pais daquilo que seria chamado de socialismo utópico.

Em O Livro dos Espíritos, Kardec indagou seus interlocutores espirituais sobre o problema da “desigualdade das condições sociais” e obteve como resposta: “É obra dos homens e não de Deus”.[11] Então, são os próprios seres humanos que necessitam resolver ou atenuar esse problema por eles criado, historicamente.

Perceba que o princípio da igualdade não contradiz o da diversidade. A filosofia espírita considera que a diversidade faz parte das múltiplas experiências do Espírito em sua trajetória evolutiva. Vivências sociais, étnicas, de gênero, de crenças, de ideologias, entre tantas outras, fazem parte do amplo contexto experiencial do ser. Por isso mesmo, a diversidade deve ser respeitada. Qual a beleza do arco-íris, sem o seu multicolorido? Qual o encanto do jardim, sem a diversidade das flores, com suas espécies e características próprias?

A diversidade de pensamentos, de culturas, de expressões estéticas, de tipos físicos, de cores, de etnias, de partidos, faz parte da riqueza da espécie humana. A igualdade defendida como um direito humano não é a uniformização da humanidade. Longe disso! Refletir sobre o tipo de civilização e de sociedade que construímos, marcada, entre outros, pela exploração e pela miséria, pelo preconceito, pela discriminação da mulher, pela homofobia e misoginia, é que necessita ser questionada. A igualdade é, justamente, o dever de se assegurar e respeitar os direitos humanos.

A teoria espírita aceita dois movimentos básicos pelos quais o progresso se desenvolve. O movimento interno, individual e pessoal, onde cada sujeito vai, dentro de seu ritmo próprio, enfrentando e superando seus condicionamentos, atavismos, vícios e preconceitos, ou seja, o seu egoísmo e seu orgulho, na construção de um humano mais humanizado. E o movimento externo, social, político, educacional, comunitário, jurídico, que visa aperfeiçoar os mecanismos coletivos de convivência. Os dois movimentos funcionam dialeticamente um sobre o outro.

Allan Kardec enfatiza, nesse sentido, que: “os preconceitos sociais, a rotina, o fanatismo, a intolerância e a ignorância” são inimigos do progresso.[12] Léon Denis, considerado um dos mais eminentes filósofos espíritas do século XIX, em suas conferências realizadas nas cidades de Tours Orléans, em 29 de fevereiro, e 4 de abril de 1880,  referindo-se ao progresso político e à situação social da França,  enfatizava o papel da cidadania:

 

A República democrática é a mais racional e a mais lógica forma de liberdade e só ela pode levantar, valorizar as almas que o despotismo humilhou. Só ela pode fazer a verdadeira igualdade entre os homens, sem rebaixar os grandes ao nível dos pequenos, porém, dando aos pequenos os meios de se elevarem gradualmente ao nível dos grandes, pela instrução, pela liberdade de trabalho e de associação, pela uniformidade dos direitos. O governo da República é a expressão da vontade nacional. O povo, reunido em seus comícios, nomeia seus representantes e estes elegem o chefe do poder. É, portanto, o povo que se governa a si próprio por meio do sufrágio universal. Cada cidadão participa da soberania. Uma nação republicana é um vasto organismo, um grande corpo, do qual cada eleitor é um membro.[13]

 

Governos despóticos, tiranos, absolutistas, autocráticos e ditatoriais são, por natureza, nocivos aos direitos humanos. Impõe censura, estruturas de repressão, intolerância e controle social, implementando a tortura e a morte como políticas de Estado. Nosso filósofo depositava grande esperança nos governos democráticos e no papel dos cidadãos. Estar no mundo é assumir, como lembrou Deolindo Amorim, reconhecido pensador espírita, compromissos diante das contingências sociais.[14] Léon Denis enfatiza ainda:

                                                                                        

Vede, cidadãos, quanto, com a República, nossa responsabilidade aumenta, pois a sorte de nosso País está em nossas mãos. Somos nós que, por nossas escolhas e nossos sufrágios, fazemos nossos destinos. Compreendei, agora, quanto é necessário que cada um de nós se esclareça e se aperfeiçoe, quanto é necessário que o julgamento de todos se fortifique, porque, eu vos pergunto, que faríamos dos direitos e das liberdades, se não soubéssemos emprega-los com sabedoria, com discernimento.[15]

 

A sociedade contemporânea, assim como na época de Kardec e de Denis, nos apresenta diariamente seus desafios humanos e sociais.  Vez por outra, ressurgem focos de intolerância, verdadeiros “tumores” degenerativos da tessitura social, conspirando contra os ideais progressistas, humanísticos e democráticos. O recrudescimento, nos últimos tempos, de ideologias (de Estado) que pregam um conservadorismo ufanista e retrógrado, sobre temas que envolvem sexualidade e família, por exemplo, com viés explicitamente patriarcal, machista e homofóbico, atualizam os debates sobre igualdade e direitos humanos.    Nesse sentido, segundo afirmou o filósofo francês Gilles Lipovetsky: “Quanto mais frustrante é a sociedade, mais ela promove as condições necessárias para uma re-oxigenação da vida”.[16] 

Para Lipovetsky, vivemos numa sociedade, apesar de todos os seus desafios, mais aberta do que no passado. Os modos de vida são cada vez mais mutáveis, baseados em um amplo leque de alternativas, escolhas e padrões. A época atual, oferece mais recursos para o enfrentamento das mazelas sociais. As sociedades no século 21 mudam com muito mais rapidez do que na época de Kardec. Existe uma frequente revisão e crítica dos descaminhos humanitários, realizada por organismos sociais, coletivos e instituições que, de alguma forma, pensam e lutam por uma sociedade melhor para todos.

 



[1] Pesquisador espírita, livre-pensador, autor de vários livros dentre os quais: “Morte, luto e imortalidade. Olhares e perspectivas, 2021.”

[2]ROBESPIERRE, Maximilien de. Discours Sur L’Organisation Des Gardes Nationales. Publié mi-décembre 1790 / Utilisé devant l’Assemblée Nationale les 27 & 28 avril 1791. XVI. Disponível em: https://books.google.com.br

[3] Allan Kardec conhecia os clássicos e traduziu obras da literatura francesa para o alemão, como Telêmaco, de Fénelon. Dominava fluentemente o latim, grego, italiano, holandês, inglês, gaulês e o castelhano. Foi um estudioso da filosofia grega, como pode ser observado em sua análise do pensamento filosófico de Sócrates e Platão, os quais considerou, ao lado de Jesus de Nazaré, como precursores do Espiritismo, na magistral introdução de O Evangelho Segundo o Espiritismo. Educado no humanismo pestalozziano, de nítida influência do pensamento ético e pedagógico de Rousseau, o fundador do Espiritismo possuía uma formação clássica, enciclopédica, típica dos humanistas de seu tempo.

LARA, Eugenio. Breve Ensaio sobre o Humanismo Espírita. Santos, SP: CPDoc, 2012. p.54-55.

[4] KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos, questão 880. Princípio também defendido na Declaração de Independência Americana em 1776.

[5] KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Questões 881 e 882.

[6] KARDEC, Allan. Livre pensamento e livre consciência. Revista Espírita. Fevereiro de 1867.

[7] Mesmo com a expansão das ideias liberais a França, na época em que Kardec escreveu esse texto, era governada por Napoleão III e seu governo ditatorial e repressor. Além disso, havia forte reação da Igreja às ideias de separação entre Estado e Religião.

[8] MOREIRA, Milton Medran. Direito e Justiça. Um olhar espírita. Porto Alegre: Imprensa Livre, 2004. p.77.

[9] O mesmo texto será publicado, também, no livro: Obras Póstumas, lançado em 1890. Para alguns estudiosos, é necessária cautela em atribuir autoria de Allan Kardec aos tais textos, uma vez que somente foram publicados após sua morte. De qualquer forma, estou considerando, para efeito de análise, o conteúdo do próprio texto, mais do que o critério de autoridade atribuído ao seu autor.

[10] KARDEC, Allan. Liberdade, igualdade e fraternidade. In. Obras Póstumas. 14º edição. Revisão e notas. Herculano Pires. LAKE. p. 195.

[11] KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos, questão 806.

[12] KARDEC, Allan. Revista Espírita. Junho de 1868,

[13] DENIS, Léon. O Progresso. Tradução: José Jorge. 2ª ed. Rio de Janeiro: Edições Léon Denis, 2005. p.44-45.

[14] AMORIM, Deolindo. Definição e opção. In. O Espiritismo e os problemas humanos. São Paulo: USE, 1985.

[15] DENIS, Léon. O Progresso. Conferência feita em Tours, na sala do Cirque, em 29 de fevereiro de 1880, e em Orléans, na sala do Instituto em 4 de abril de 1880. 2ª ed. Trad. José Jorge. Edições Léon Denis – RJ, 2005. p.45.

[16] LIPOVETSKY, Gilles. A Sociedade da Decepção. Trad. Armando Braio. Barueri-SP: Manole, 2007. p.74.

sábado, 10 de julho de 2021

Carta do Editor - 7º Editorial


 

O Silêncio que Mata

         Traremos aqui alguns nomes, porque não dá para vivermos mais tratando pessoas como números, meras estatísticas, como se não fossem vidas, não carregassem subjetividades, anseios, sonhos e desejos. São vidas humanas abruptamente interrompidas.

         Alguns atos de violência transfóbica que aconteceram nos últimos dias em Pernambuco:


·        18/06/2021 - Kalyndra Selva, 26 anos, encontrada morta dentro de casa no Ipsep, Recife – PE.

·        24/06/2021 - Roberta da Silva, 33 anos, queimada viva no Cais de Santa Rita, Recife - PE, sobreviveu, teve o braço esquerdo e parte do direito amputados.

·        05/07/2021 - Crismilly Pérola, 37 anos, morta a tiros na Várzea - Recife – PE.

·        07/07/2021 - Fabiana da Silva Lucas, 30 anos, assassinada a facadas, em Santa Cruz do Capibaribe – PE.

 

         Hoje dia 09 de julho de 2021, Roberta da Silva veio a óbito, depois de vários dias de dores e sofrimentos, onde teve seus dois braços amputados.

         Algumas perguntas precisam ser feitas: Até quando isso vai continuar acontecendo? Até quando o Estado vai se mostrar ineficiente na culpabilização dos atores destes horrendos crimes? E até quando o Movimento Espírita Brasileiro vai ficar calado e omisso a todas estas violências? Até quando o silêncio?

Fazemos referência a Kardec na seguinte pergunta do O Livro dos Espíritos:

 880. Qual é o primeiro de todos os direitos naturais do homem?     — O de viver. É por isso que ninguém tem o direito de atentar contra a vida do semelhante ou fazer qualquer coisa que possa comprometer a sua existência corpórea.

         Nos baseando no que Kardec pergunta e os Espíritos respondem, compreendemos que defender a vida não é apenas ser contra o aborto, isso é ser em defesa da vida intrauterina, a vida humana precisa e deve ser respeitada e protegida.

O Movimento Espírita Brasileiro que diz não fazer política; para defender a vida dos embriões se embrenha em jogadas e parcerias políticas, o que nos faz entender que a proibição as “coisas que envolvem discussão política”, só são efetivas quando falamos de negros, negras, mulheres e a comunidade LGBTQIAP+, estas vidas, nesta perspectiva, não são passíveis de luta.

         Hoje, mais do que nunca, precisamos falar da nossa indignação, com toda esta violência, sermos solidários, fazermos valer a nossa voz, e mostrar ao Estado validador da Necropolítica que dá valia aos corpos que são dignos de serem protegidos e os que não são, os que merecem viver ou não, e os que devem ter acesso à políticas públicas ou não, que não nos calarão.

 

Por que é tão importante que não nos calemos?

·        Simplesmente por sabermos, segundo dados da ANTRA –  Associação Nacional de Travestis e Transexuais, que os corpos transexuais no Brasil possuem uma expectativa de vida de 35 anos, enquanto a expectativa em nosso País é o dobro.

 

·        Por sabermos que existem em nossa sociedade, ações coordenadas por religiosos de diversas matizes, que usam de fundamentalismo e ferem a laicidade e a Democracia com pautas que são diametralmente contrárias às pautas de Jesus de Nazaré que nos ensinou a amar os diferentes e não a odiar. Estas práticas validam as violências e impossibilitam a criação de políticas públicas que contemplem as pessoas Transexuais, ficando a cargo do STF – Supremo Tribunal Federal – A manutenção e garantia dos direitos da referida comunidade.

 

O Espiritismo não é omisso às questões sociais, portanto não é insensível às pautas dos Direitos Humanos, nós Espíritas precisamos sim sair da inércia e de alguma maneira encamparmos postura concreta e atuante em favor das minorias sociais.

É imperioso a proteção de todas as vidas e a não construção de um processo seletivo que dite quais vidas merecem as nossas pautas de políticas públicas e quais vidas não merecem as mesmas pautas, tendo os corpos Transexuais como régua balizadora para a negação destas mesmas políticas

O Espiritismo não se utiliza das suas bases estruturais para validar qualquer tipo de desigualdade e injustiça social, desta forma, a reencarnação, a causa e efeito, as provas e as expiações, não são apetrechos dos quais pessoas desavisadas e sem conhecimento da Doutrina Espirita como fonte promotora de renovação social, se utilizem para poderem estabelecer a partir destes conceitos a banalização das dores, que são como nos diz Kardec na pergunta 806 do O Livro dos Espíritos,” responsabilidade dos homens” e não da divindade.

Assim, nos solidarizamos a toda a comunidade Transexual que sofre todos os dias perseguições de todas as ordens, que são aviltadas em seu direito de existir, que são invisibilizadas por vários ambientes religiosos que negam as suas Espiritualidades que são violentamente estabelecidas pelos seus corpos e não são oferecidos acolhimentos, para que no ambiente de “amor”, as pessoas sejam amadas pelo que são e não pelo que a norma espera que elas sejam.

Não nos calaremos, não seremos omissos, estaremos sempre do lado dos oprimidos, aprendemos o Espiritismo assim, como uma pedagogia que se inspira em Jesus de Nazaré para estabelecer as relações com o mundo.

Vidas Transexuais Importam!

Por isso, nossa reverência a Dandara, Bianca Close, Kalyndra Selva, Crismilly Pérola, Fabiana da Silva Lucas, Roberta da Silva...

Presente! Presente! Presente! Presente! Presente! Presente!

        

Referências Bibliográficas

KARDEC, Allan 2007, p.p 272,291 ____________________________________

https://antrabrasil.org/




Editorial Ágora Espírita - Alexandre Júnior

quarta-feira, 16 de junho de 2021

Raízes humanas e naturais. A consciência de que estamos dentro do meio ambiente e dele fazemos parte naturalmente e socialmente.



Artigo do Eixo: Espiritismo e Meio Ambiente por Maria Helena Paz

 


     “... a semente...”

 Podia a terra encher, germinar e crescer;

 Previmos uma luta, e aguardamos pra ver...”

  O Vento – Fábula Espírita - Revista Espírita 1862

 

    Passado vinte anos do início do século XXI e onde a informação a partir das tecnologias são rápidas, em poucos minutos um ser humano pode se conectar com outro em qualquer parte do planeta. Mesmo assim as questões ambientais ainda são entendidas como as ações diárias que contribuem para uma postura socialmente correta, nos discursos de muitos processos educativos. Ficando entre a dicotomia das atitudes que destroem o ambiente natural e têm que deixar de serem feitas e as ações que reconstroem o que foi destruído e que precisam fazer cada vez mais parte de nosso dia a dia.

A construção dos fundamentos que arquitetam os mecanismos didáticos para um novo pensar, a relação do homem e seu meio são os alvos de pesquisa do Eixo Espiritismo e Meio Ambiente do coletivo Ágora.

     A busca aqui é voltar à semente do mundo corpóreo do qual fizemos parte e que germinou, sair do errôneo olhar contemplativo como se a natureza estivesse fora de nós; somos parte da natureza, isso já sabemos. O que precisamos entender que ao germinar e crescer continuamos dentro dessa natureza e essa é a nossa investigação. “Todo conhecimento comporta o risco do erro e da ilusão” nos alerta Edgar Morim e orienta ainda na mesma obra: “O desenvolvimento do conhecimento científico é poderoso meio de detecção dos erros e de luta contra as ilusões”. Talvez o conhecimento institucional que norteia a aprendizagem em todos os ambientes tenha criado o problema do reducionismo das questões humanas naturais. Separando ser humano da natureza, cortando ilusoriamente suas raízes.

 

“A responsabilidade humana decorre das exigências consciências e está sempre na razão direta do grau de desenvolvimento consciencial das criaturas. Por outro lado, esse desenvolvimento depende das condições de liberdade e do grau de opção de que as criaturas dispõem. Justamente por isso o problema, que parece simples à primeira vista, torna-se bastante complexo quando o examinamos.”  Herculano Pires, pág.68 

 

 

     Quando buscamos a relação do ser e a natureza à luz da doutrina espírita, percebemos essa analogia intrínseca entre o espírito (ser) e o mundo por ele habitado, já na introdução do Livro dos Espíritos (L.E) o Sr. Allan Kardec deixa explicito “O homem tem, assim, duas naturezas: por seu corpo, ele participa da natureza dos animais, de quem possui o instinto; por sua alma, participa da natureza dos Espíritos.”  Em outro momento quando se refere ao perispírito (invólucro) que une o espírito ao corpo no período da reencarnação, ele faz a seguinte pergunta: ” De onde o Espírito extrai esse envoltório semimaterial?” Os espíritos respondem “Do fluido universal de cada globo”. Falar do espírito e sua relação com o globo é falar de humanidade.

  Ailton Krenak logo no início de seu livro A Vida Não é Útil, pág9 afirma:

 

 “Quando falo de humanidade não estou falando só de Homo sapiens, me refiro a uma imensidão de seres que nós excluímos de sempre: caçamos baleias, tiramos barbatanas de tubarão, matamos leões e o penduramos na parede para mostrar que somos mais bravos que ele. Além da matança de todos os outros humanos ...”

 

 

         Na questão 843 do LE Kardec pergunta: “Tem o homem o livre-arbítrio de seus atos?” Os espíritos respondem, “Pois, que tem a liberdade de pensar, tem igualmente a de obrar. Sem o livre-arbítrio, o homem seria máquina.” Da humanidade universal onde Homo sapiens e todo globo estão intrinsicamente ligados até o livre arbítrio, nossos movimentos interferem no nosso progresso natural, social, espiritual e psíquico.

         Estamos passando por uma crise mundial de saúde, humanitária e de paradigmas. Precisamos repensar nossa ação de cidadão do mundo. Os povos originários, os espíritos abnegados , os pensadores comprometidos com as questões do globo nos apontam caminhos, basta apenas que tenhamos olhos com vontade ver.

Pensar e olhar a humanidade terrestre a partir de uma ideia fundada no humano intrínseco nos outros seres, organismos vivos unidos e compartilhando a mesma atmosfera, nos colocar em uma pequena partícula do todo, compreender que foi a desarmonia com as nossas ramificações da gleba que nos tornou tão inferiores que hoje passamos por uma pandemia que nos tira a condição de respirar, será o começo .

  Em outro livro, fundamental para nossas reflexões, Ideias para adiar o fim do mundo, Krenak nos convoca a pensar que

 

 “... Tal ideia de humanidade, ao mesmo tempo que se apoia sobre uma distinção literalmente fundamental entre os humanos e demais existentes terrestres, remete para uma sub-humanidade aqueles povos que sempre recusam tal distinção, relegando-os para as margens...”

 

Podemos completar esse pensamento com a presença do egoísmo nas relações. Na questão 915 do L.E: “Por ser inerente à espécie humana, o egoísmo não constituirá sempre um obstáculo ao reinado do bem absoluto na Terra?” A resposta “É exato que no egoísmo tendes o vosso maior mal, porém ele se prende à inferioridade dos Espíritos encarnados na Terra e não à Humanidade mesma...” o caminho será sempre combater o egoísmo. Essa é a marcha do progresso.

         As novas propostas de uma parte do movimento espírita caminham para devolver ao espiritismo seu caráter progressista, discutindo as questões dos homens vivos e pungentes no caminhar da evolução, para isso precisa estar atento, compreender e dialogar com outras filosofias e ciências, sair da couraça evangelista que aprisionou por anos o pensamento crítico.  

No L.E a pergunta 702: “O instinto de conservação é uma lei da Natureza?”  A resposta é inequívoca “Sem dúvida. Todos os seres vivos o possuem, qualquer que seja o seu grau de inteligência; nuns é puramente mecânico e noutros é racional.”  Na 703, “Com que fim Deus concedeu a todos os seres vivos o instinto de conservação?  A resposta — “Porque todos devem colaborar nos desígnios da Providência...” Compreender o que precisamos de uma ação de preservação, cuidar do grande organismo vivo que chamamos de Terra ou Lemolahgo, para os povos Xucurus, passa pelo entendimento de que não conseguiremos sozinhos; não será isolado em nossos grupos religiosos, que mudaremos essa realidade.

         Presente no cotidiano da sociedade, contudo, ainda distante dos interesses do movimento espírita em sua maioria, a educação ambiental, é essencial em todos os espaços de processos educativos.

Com o mundo cada vez mais globalizado e a sociedade em níveis altos de violações dos recursos naturais, sociais e humanos, mudar opiniões irrealizadas na cultura do movimento espírita onde a evangelização  e não a educação dos seguidores do espiritismo na versão brasileira, conduziu por anos as interpretações das essências kardecista, baseada em uma salvação viciosa da caridade que pouco contribuiu para o real progresso do cosmo, vendendo um mundo superior para uma minoria ou como dizem para os escolhidos. As Expressões: “não cai uma folha sem que Deus permita” ou “estamos aqui de passagem”, construíram em muitos o distanciamento do cosmo, do lugar de onde retirou o fluido cósmico universal para se constituir tudo e todos. 

Encontrar a profundidade do que quer dizer progresso e estimular ações progressistas, talvez seja o maior desafio do Eixo Espiritismo e Meio ambiente. O despertar de uma consciência cósmica, a partir de um movimento que trata das questões dos espíritos e sua relação com o mundo material enquanto seres vivos.

 


Referências Bibliográficas

 

Revista espírita

https://www.febnet.org.br/ba/file/Downlivros/revistaespirita/Revista1862

 

 Livros de Ailton Krenak

A vida não é útil

Ideias para adiar o fim do mundo

Editora Companhia das Letras

      

Edgar Morin

Os sete saberes necessários à educação do futuro.

http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/EdgarMorin.

 

O Livro dos espíritos

https://espirito.org.br/wp-content/uploads/2017/05/Livro-dos-Espiritos

 

Curso_Dinamico_de_Espiritismo__O_Grande_desconhecido_1979.

https://files.comunidades.net/portaldoespirito/23__Curso_Dinamico_de_Espiritismo__O_Grande_Desconhecido_1979.

 


quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

Carta do Editor - 6º Editorial.

 





Espiritismo Progressista, sem amor, é falácia!


Falamos constantemente sobre a liberdade que Kardec conclama ao elevar o ser Espiritual a condição de “Livre Pensador”.  O objetivo desta transcendência da liberdade intelectual dos habitantes do orbe, é ascender este espirito a uma vivência autônoma das suas próprias demandas. É viver um processo de autoconstrução, consciente da concepção das leis naturais nas ações da condição humana a partir das nossas próprias compreensões e comportamentos.

Saímos assim do período da inconsciência de nossos atos, para o período da vivência comportamental, pois, o Espiritismo é uma Doutrina comportamental e não contemplativa. Quando falamos, escrevemos e ou discutimos em nome do Espiritismo, as nossas convicções pessoais devem ser relegadas a segundo plano, sob pena de nos constituirmos personalistas, ou, de confundirmos o que pensamos com o próprio Espiritismo; ou, imaginarmos pelos motivos citados acima, que aquilo que falamos trata-se de uma verdade universal e absoluta, o que bem sabemos não é um fato.

As discordâncias fazem parte dos cenários sociais, ajudam na construção da sociedade e compõem as lutas. Em que pese, que a forma com que discordamos, é a compreensão das demandas humanas em uma perspectiva plural, defender ideais com violência, seja ela virtual, emocional, psicológica, com o objetivo de cancelar o que outro pensa, e consequentemente quem ele é, não é nem democrático, quiçá, Espírita.

O Movimento Espírita Progressista, assim como todo e qualquer movimento organizado por seres humanos, possuem as suas dificuldades de atuação, pois encontra em seus atores, pessoas normais, desta maneira, egos inflados, associados a destemperos emocionais, desaguam em desrespeito e arbitrariedade. Precisamos repensar as nossas práticas com urgência, sob pena, de sermos o mesmo Movimento Espírita instituído a mais de um século, apenas com uma diferença: o fato de sermos do espectro de Esquerda.

Não me incomoda sermos taxados de “cafonas”, “progressistas de Direita”; mas, política sem amor, “ NÃO É ESPIRITISMO”, nem progressista nem conservador, se me valho de uma compreensão social da vida para oprimir outras pessoas, “ NÃO É ESPIRITISMO”. O Espiritismo nos convida: a amar, ao debate lúcido, respeitoso. Não somos obrigados a concordar com nada, imagina com tudo, mas temos o dever de entender o outro, como cidadãos que somos, aprendemos a respeitar os diferentes, como Espíritas que nos dizemos ser, somos educados a “AMAR”, os diferentes, bem como as diferenças.

Há momentos que nos propiciam aprendizados e possuem o objetivo, não velado, mas, escancarado, de provar para nós mesmos, que não estamos tão distantes assim uns dos outros, oxalá nos sirva, para trabalharmos a humildade de percebermos, sentirmos, que o outro está apenas em um momento diferente do nosso e apenas um rótulo de  “Espírita Progressista”, sem uma ação que coadune com  a adjetivação, de nada nos vale, nada nos engrandece e o que é pior, em nada muda a sociedade, tal quanto a desigualdade e a injustiça social, estas precisam ser rompidas primeiramente em nós, depois sim, trabalhemos juntos para a construção deste reino na terra, como já nos dizia o saudoso Herculano Pires. Até lá, doa, em quem doer, “Progressistas ou Conservadores”, precisamos sim propiciar o diálogo, pois, sem ele não avançaremos, seja em que seara for, o que nos deixa cientes, de que no campo das humanidades, temos muita coisa ainda para aprendermos uns com os outros.

Uma coisa é certa, não dá para sermos Sexistas, Misóginos, Racistas, LGBTfobicos, Machistas, Xenofóbicos e buscar pontos ou vírgulas na Doutrina Espírita, que justifiquem tais violências, ou, aviltar a intimidade das pessoas com cancelamentos e linchamentos virtuais ou presenciais, que de maneira alguma são ações validadas pelo Espiritismo.

Nossa solidariedade a todas e todos, que além da vileza de um Brasil pandêmico, foram de alguma forma vítimas de qualquer tipo de violência e ou cancelamento, sejam estes presencias ou virtuais.


Editorial Ágora Espírita: Alexandre Júnior


quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

AFINAL, O QUE É O ESPIRITISMO LAICO?

Por Salomão Jacob Benchaya


Não tendo o espiritismo nenhum dos caracteres de uma religião,

 na acepção usual do vocábulo, não podia nem devia enfeitar-se

com um título sobre cujo valor, inevitavelmente, se teria equivocado.

Eis porque simplesmente se diz: doutrina filosófica e moral.

(Allan Kardec – RE dez/1868)


Adjetivação, origem e contexto

A rigor, o espiritismo não deveria ser adjetivado. A expressão espiritismo laico só existe por necessidade comunicacional de distinguir-se do espiritismo cristão ou evangélico, segmento majoritário liderado pela FEB. No movimento espírita, é constituído pelos que consideram o espiritismo sob uma perspectiva laica, humanista, livre-pensadora, progressista, pluralista e alteritária. A expressão “espiritismo laico” é tão imprópria como “espiritismo cristão” ou “espiritismo religioso”, mas permite identificar as posturas decorrentes, na prática espírita, de uma ou de outra posição. Queiramos ou não, é forçoso admitir que os espíritas se agrupam por preferências e particularidades formando segmentos ou vertentes, tais como, religiosos ou evangélicos ou cristãos, laicos ou não religiosos, roustainguistas, ubaldistas, ramatizistas, armondistas, apometristas, chiquistas, divaldistas, etc.

O espiritismo laico e livre-pensador contrapõe-se ao modelo dominante de espiritismo religioso, cristão e/ou evangélico. Enquanto o espiritismo religioso apregoa a tríade ciência-filosofia-religião, os laicos preferem ciência-filosofia-moral, embora admitam que Kardec nunca propôs essa tripartição. Kardec classificava o espiritismo como ciência filosófica de consequências morais. A definição de espiritismo dada por Kardec na Introdução do livro “O que é o Espiritismo” expressava essa condição epistemológica.

Não há colônias espirituais, segundo a codificação

Muito se trata do que se passa nas chamadas “colônias” espirituais, no Movimento Espírita Brasileiro hegemônico, ou de como se vai para lá, ...