quarta-feira, 16 de junho de 2021

Raízes humanas e naturais. A consciência de que estamos dentro do meio ambiente e dele fazemos parte naturalmente e socialmente.



Artigo do Eixo: Espiritismo e Meio Ambiente por Maria Helena Paz

 


     “... a semente...”

 Podia a terra encher, germinar e crescer;

 Previmos uma luta, e aguardamos pra ver...”

  O Vento – Fábula Espírita - Revista Espírita 1862

 

    Passado vinte anos do início do século XXI e onde a informação a partir das tecnologias são rápidas, em poucos minutos um ser humano pode se conectar com outro em qualquer parte do planeta. Mesmo assim as questões ambientais ainda são entendidas como as ações diárias que contribuem para uma postura socialmente correta, nos discursos de muitos processos educativos. Ficando entre a dicotomia das atitudes que destroem o ambiente natural e têm que deixar de serem feitas e as ações que reconstroem o que foi destruído e que precisam fazer cada vez mais parte de nosso dia a dia.

A construção dos fundamentos que arquitetam os mecanismos didáticos para um novo pensar, a relação do homem e seu meio são os alvos de pesquisa do Eixo Espiritismo e Meio Ambiente do coletivo Ágora.

     A busca aqui é voltar à semente do mundo corpóreo do qual fizemos parte e que germinou, sair do errôneo olhar contemplativo como se a natureza estivesse fora de nós; somos parte da natureza, isso já sabemos. O que precisamos entender que ao germinar e crescer continuamos dentro dessa natureza e essa é a nossa investigação. “Todo conhecimento comporta o risco do erro e da ilusão” nos alerta Edgar Morim e orienta ainda na mesma obra: “O desenvolvimento do conhecimento científico é poderoso meio de detecção dos erros e de luta contra as ilusões”. Talvez o conhecimento institucional que norteia a aprendizagem em todos os ambientes tenha criado o problema do reducionismo das questões humanas naturais. Separando ser humano da natureza, cortando ilusoriamente suas raízes.

 

“A responsabilidade humana decorre das exigências consciências e está sempre na razão direta do grau de desenvolvimento consciencial das criaturas. Por outro lado, esse desenvolvimento depende das condições de liberdade e do grau de opção de que as criaturas dispõem. Justamente por isso o problema, que parece simples à primeira vista, torna-se bastante complexo quando o examinamos.”  Herculano Pires, pág.68 

 

 

     Quando buscamos a relação do ser e a natureza à luz da doutrina espírita, percebemos essa analogia intrínseca entre o espírito (ser) e o mundo por ele habitado, já na introdução do Livro dos Espíritos (L.E) o Sr. Allan Kardec deixa explicito “O homem tem, assim, duas naturezas: por seu corpo, ele participa da natureza dos animais, de quem possui o instinto; por sua alma, participa da natureza dos Espíritos.”  Em outro momento quando se refere ao perispírito (invólucro) que une o espírito ao corpo no período da reencarnação, ele faz a seguinte pergunta: ” De onde o Espírito extrai esse envoltório semimaterial?” Os espíritos respondem “Do fluido universal de cada globo”. Falar do espírito e sua relação com o globo é falar de humanidade.

  Ailton Krenak logo no início de seu livro A Vida Não é Útil, pág9 afirma:

 

 “Quando falo de humanidade não estou falando só de Homo sapiens, me refiro a uma imensidão de seres que nós excluímos de sempre: caçamos baleias, tiramos barbatanas de tubarão, matamos leões e o penduramos na parede para mostrar que somos mais bravos que ele. Além da matança de todos os outros humanos ...”

 

 

         Na questão 843 do LE Kardec pergunta: “Tem o homem o livre-arbítrio de seus atos?” Os espíritos respondem, “Pois, que tem a liberdade de pensar, tem igualmente a de obrar. Sem o livre-arbítrio, o homem seria máquina.” Da humanidade universal onde Homo sapiens e todo globo estão intrinsicamente ligados até o livre arbítrio, nossos movimentos interferem no nosso progresso natural, social, espiritual e psíquico.

         Estamos passando por uma crise mundial de saúde, humanitária e de paradigmas. Precisamos repensar nossa ação de cidadão do mundo. Os povos originários, os espíritos abnegados , os pensadores comprometidos com as questões do globo nos apontam caminhos, basta apenas que tenhamos olhos com vontade ver.

Pensar e olhar a humanidade terrestre a partir de uma ideia fundada no humano intrínseco nos outros seres, organismos vivos unidos e compartilhando a mesma atmosfera, nos colocar em uma pequena partícula do todo, compreender que foi a desarmonia com as nossas ramificações da gleba que nos tornou tão inferiores que hoje passamos por uma pandemia que nos tira a condição de respirar, será o começo .

  Em outro livro, fundamental para nossas reflexões, Ideias para adiar o fim do mundo, Krenak nos convoca a pensar que

 

 “... Tal ideia de humanidade, ao mesmo tempo que se apoia sobre uma distinção literalmente fundamental entre os humanos e demais existentes terrestres, remete para uma sub-humanidade aqueles povos que sempre recusam tal distinção, relegando-os para as margens...”

 

Podemos completar esse pensamento com a presença do egoísmo nas relações. Na questão 915 do L.E: “Por ser inerente à espécie humana, o egoísmo não constituirá sempre um obstáculo ao reinado do bem absoluto na Terra?” A resposta “É exato que no egoísmo tendes o vosso maior mal, porém ele se prende à inferioridade dos Espíritos encarnados na Terra e não à Humanidade mesma...” o caminho será sempre combater o egoísmo. Essa é a marcha do progresso.

         As novas propostas de uma parte do movimento espírita caminham para devolver ao espiritismo seu caráter progressista, discutindo as questões dos homens vivos e pungentes no caminhar da evolução, para isso precisa estar atento, compreender e dialogar com outras filosofias e ciências, sair da couraça evangelista que aprisionou por anos o pensamento crítico.  

No L.E a pergunta 702: “O instinto de conservação é uma lei da Natureza?”  A resposta é inequívoca “Sem dúvida. Todos os seres vivos o possuem, qualquer que seja o seu grau de inteligência; nuns é puramente mecânico e noutros é racional.”  Na 703, “Com que fim Deus concedeu a todos os seres vivos o instinto de conservação?  A resposta — “Porque todos devem colaborar nos desígnios da Providência...” Compreender o que precisamos de uma ação de preservação, cuidar do grande organismo vivo que chamamos de Terra ou Lemolahgo, para os povos Xucurus, passa pelo entendimento de que não conseguiremos sozinhos; não será isolado em nossos grupos religiosos, que mudaremos essa realidade.

         Presente no cotidiano da sociedade, contudo, ainda distante dos interesses do movimento espírita em sua maioria, a educação ambiental, é essencial em todos os espaços de processos educativos.

Com o mundo cada vez mais globalizado e a sociedade em níveis altos de violações dos recursos naturais, sociais e humanos, mudar opiniões irrealizadas na cultura do movimento espírita onde a evangelização  e não a educação dos seguidores do espiritismo na versão brasileira, conduziu por anos as interpretações das essências kardecista, baseada em uma salvação viciosa da caridade que pouco contribuiu para o real progresso do cosmo, vendendo um mundo superior para uma minoria ou como dizem para os escolhidos. As Expressões: “não cai uma folha sem que Deus permita” ou “estamos aqui de passagem”, construíram em muitos o distanciamento do cosmo, do lugar de onde retirou o fluido cósmico universal para se constituir tudo e todos. 

Encontrar a profundidade do que quer dizer progresso e estimular ações progressistas, talvez seja o maior desafio do Eixo Espiritismo e Meio ambiente. O despertar de uma consciência cósmica, a partir de um movimento que trata das questões dos espíritos e sua relação com o mundo material enquanto seres vivos.

 


Referências Bibliográficas

 

Revista espírita

https://www.febnet.org.br/ba/file/Downlivros/revistaespirita/Revista1862

 

 Livros de Ailton Krenak

A vida não é útil

Ideias para adiar o fim do mundo

Editora Companhia das Letras

      

Edgar Morin

Os sete saberes necessários à educação do futuro.

http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/EdgarMorin.

 

O Livro dos espíritos

https://espirito.org.br/wp-content/uploads/2017/05/Livro-dos-Espiritos

 

Curso_Dinamico_de_Espiritismo__O_Grande_desconhecido_1979.

https://files.comunidades.net/portaldoespirito/23__Curso_Dinamico_de_Espiritismo__O_Grande_Desconhecido_1979.

 


quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

Carta do Editor - 6º Editorial.

 





Espiritismo Progressista, sem amor, é falácia!


Falamos constantemente sobre a liberdade que Kardec conclama ao elevar o ser Espiritual a condição de “Livre Pensador”.  O objetivo desta transcendência da liberdade intelectual dos habitantes do orbe, é ascender este espirito a uma vivência autônoma das suas próprias demandas. É viver um processo de autoconstrução, consciente da concepção das leis naturais nas ações da condição humana a partir das nossas próprias compreensões e comportamentos.

Saímos assim do período da inconsciência de nossos atos, para o período da vivência comportamental, pois, o Espiritismo é uma Doutrina comportamental e não contemplativa. Quando falamos, escrevemos e ou discutimos em nome do Espiritismo, as nossas convicções pessoais devem ser relegadas a segundo plano, sob pena de nos constituirmos personalistas, ou, de confundirmos o que pensamos com o próprio Espiritismo; ou, imaginarmos pelos motivos citados acima, que aquilo que falamos trata-se de uma verdade universal e absoluta, o que bem sabemos não é um fato.

As discordâncias fazem parte dos cenários sociais, ajudam na construção da sociedade e compõem as lutas. Em que pese, que a forma com que discordamos, é a compreensão das demandas humanas em uma perspectiva plural, defender ideais com violência, seja ela virtual, emocional, psicológica, com o objetivo de cancelar o que outro pensa, e consequentemente quem ele é, não é nem democrático, quiçá, Espírita.

O Movimento Espírita Progressista, assim como todo e qualquer movimento organizado por seres humanos, possuem as suas dificuldades de atuação, pois encontra em seus atores, pessoas normais, desta maneira, egos inflados, associados a destemperos emocionais, desaguam em desrespeito e arbitrariedade. Precisamos repensar as nossas práticas com urgência, sob pena, de sermos o mesmo Movimento Espírita instituído a mais de um século, apenas com uma diferença: o fato de sermos do espectro de Esquerda.

Não me incomoda sermos taxados de “cafonas”, “progressistas de Direita”; mas, política sem amor, “ NÃO É ESPIRITISMO”, nem progressista nem conservador, se me valho de uma compreensão social da vida para oprimir outras pessoas, “ NÃO É ESPIRITISMO”. O Espiritismo nos convida: a amar, ao debate lúcido, respeitoso. Não somos obrigados a concordar com nada, imagina com tudo, mas temos o dever de entender o outro, como cidadãos que somos, aprendemos a respeitar os diferentes, como Espíritas que nos dizemos ser, somos educados a “AMAR”, os diferentes, bem como as diferenças.

Há momentos que nos propiciam aprendizados e possuem o objetivo, não velado, mas, escancarado, de provar para nós mesmos, que não estamos tão distantes assim uns dos outros, oxalá nos sirva, para trabalharmos a humildade de percebermos, sentirmos, que o outro está apenas em um momento diferente do nosso e apenas um rótulo de  “Espírita Progressista”, sem uma ação que coadune com  a adjetivação, de nada nos vale, nada nos engrandece e o que é pior, em nada muda a sociedade, tal quanto a desigualdade e a injustiça social, estas precisam ser rompidas primeiramente em nós, depois sim, trabalhemos juntos para a construção deste reino na terra, como já nos dizia o saudoso Herculano Pires. Até lá, doa, em quem doer, “Progressistas ou Conservadores”, precisamos sim propiciar o diálogo, pois, sem ele não avançaremos, seja em que seara for, o que nos deixa cientes, de que no campo das humanidades, temos muita coisa ainda para aprendermos uns com os outros.

Uma coisa é certa, não dá para sermos Sexistas, Misóginos, Racistas, LGBTfobicos, Machistas, Xenofóbicos e buscar pontos ou vírgulas na Doutrina Espírita, que justifiquem tais violências, ou, aviltar a intimidade das pessoas com cancelamentos e linchamentos virtuais ou presenciais, que de maneira alguma são ações validadas pelo Espiritismo.

Nossa solidariedade a todas e todos, que além da vileza de um Brasil pandêmico, foram de alguma forma vítimas de qualquer tipo de violência e ou cancelamento, sejam estes presencias ou virtuais.


Editorial Ágora Espírita: Alexandre Júnior


quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

AFINAL, O QUE É O ESPIRITISMO LAICO?

Por Salomão Jacob Benchaya


Não tendo o espiritismo nenhum dos caracteres de uma religião,

 na acepção usual do vocábulo, não podia nem devia enfeitar-se

com um título sobre cujo valor, inevitavelmente, se teria equivocado.

Eis porque simplesmente se diz: doutrina filosófica e moral.

(Allan Kardec – RE dez/1868)


Adjetivação, origem e contexto

A rigor, o espiritismo não deveria ser adjetivado. A expressão espiritismo laico só existe por necessidade comunicacional de distinguir-se do espiritismo cristão ou evangélico, segmento majoritário liderado pela FEB. No movimento espírita, é constituído pelos que consideram o espiritismo sob uma perspectiva laica, humanista, livre-pensadora, progressista, pluralista e alteritária. A expressão “espiritismo laico” é tão imprópria como “espiritismo cristão” ou “espiritismo religioso”, mas permite identificar as posturas decorrentes, na prática espírita, de uma ou de outra posição. Queiramos ou não, é forçoso admitir que os espíritas se agrupam por preferências e particularidades formando segmentos ou vertentes, tais como, religiosos ou evangélicos ou cristãos, laicos ou não religiosos, roustainguistas, ubaldistas, ramatizistas, armondistas, apometristas, chiquistas, divaldistas, etc.

O espiritismo laico e livre-pensador contrapõe-se ao modelo dominante de espiritismo religioso, cristão e/ou evangélico. Enquanto o espiritismo religioso apregoa a tríade ciência-filosofia-religião, os laicos preferem ciência-filosofia-moral, embora admitam que Kardec nunca propôs essa tripartição. Kardec classificava o espiritismo como ciência filosófica de consequências morais. A definição de espiritismo dada por Kardec na Introdução do livro “O que é o Espiritismo” expressava essa condição epistemológica.

terça-feira, 10 de novembro de 2020

Necropolítica, Psicanálise e Espiritismo

               

        


                                        Por Lindemberg Castro

 

A pandemia causada pelo novo coronavírus escancarou ainda mais diversas contradições a partir do mundo patologicamente considerado “normal”, no qual, mesmo agonizando em inúmeras desigualdades sociais, estávamos “acostumados” a viver (ou sobreviver). Com a ideia de um “novo normal”, que para muitos parece uma realidade alternativa já instalada, vemos que o tal “novo normal” é ainda mais cínico em seus discursos, justificando as desigualdades sociais de toda ordem, movimentando vidas humanas como peças de uma engrenagem (o que surpreenderia até mesmo Foucault), e banalizando a vida, reificando o ser humano (exatamente como nos previu George Lukács). No processo de reificação a partir das atividades capitalistas e produtivas, o ser humano passa a ser identificado cada vez mais como objeto inanimado e seu valor está diretamente relacionado com uma medida quantitativa dentro da produção de objetos ou mercadorias circulantes, perdendo a sua autonomia, a sua autoconsciência e a consciência da realidade que o cerca.

A Necropolítica nunca esteve tão fortalecida, como em nossos tempos atuais! Passamos de uma normose da qual nos queixávamos pela falta de tempo, pela baixa qualidade de vida ou pelo excesso de trabalho, para uma normose amplamente difundida, aceita e justificada pelos discursos neoliberais, discursos de ódio, notícias falsas, e relativização da vida humana possivelmente vitimada em plena pandemia, mas não necessariamente uma vida chorável ao ser perdida, como nos lembra Judith Butler (dentro da necropolítica, nem todas as vidas perdidas são choráveis). O mal-estar da civilização atingiu patamares ainda maiores, que surpreenderiam até mesmo Freud, devido ao esforço contínuo do ser humano em normatizar todos os instintos de morte a que nos alerta Herculano Pires em “Educação para a Morte” (2016).

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

Espiritismo, Saúde Mental e Direitos Humanos

 



Texto do Eixo de Pesquisa:
Espiritismo, Saúde Mental e Direitos Humanos.

Produção:  Claudia Rejane Brandão da Silva, Lindemberg Jackson Sousa de Castro, Tânia Maria Diôgo do Nascimento, Vânia Lúcia Rodrigues do Carmo


1.0 INTRODUÇÃO

Atualmente, os contextos que envolvem a Saúde Mental, tem merecido cada vez mais atenção, na sociedade em geral, pois cresce a demanda por formações/cursos/palestras/orientações que englobem prevenção aos diversos tipos de adoecimento psíquico, bem como os protocolos de atendimento e manejo básico de casos mais graves como a ocorrência da depressão e do suicídio. É importante ressaltarmos que, antes mesmo da pandemia pelo novo Coronavírus, já vivenciávamos outra, a de suicídio, mas, devido aos tabus sociais no trato com as temáticas da saúde mental (inclusive no meio espírita) e à falta de políticas públicas adequadas ao atendimento e manejo da população em adoecimento psíquico, essa situação é amplamente invisibilizada ou tratada apenas no âmbito moralista do religiosismo.

Não há colônias espirituais, segundo a codificação

Muito se trata do que se passa nas chamadas “colônias” espirituais, no Movimento Espírita Brasileiro hegemônico, ou de como se vai para lá, ...