quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

AFINAL, O QUE É O ESPIRITISMO LAICO?

Por Salomão Jacob Benchaya


Não tendo o espiritismo nenhum dos caracteres de uma religião,

 na acepção usual do vocábulo, não podia nem devia enfeitar-se

com um título sobre cujo valor, inevitavelmente, se teria equivocado.

Eis porque simplesmente se diz: doutrina filosófica e moral.

(Allan Kardec – RE dez/1868)


Adjetivação, origem e contexto

A rigor, o espiritismo não deveria ser adjetivado. A expressão espiritismo laico só existe por necessidade comunicacional de distinguir-se do espiritismo cristão ou evangélico, segmento majoritário liderado pela FEB. No movimento espírita, é constituído pelos que consideram o espiritismo sob uma perspectiva laica, humanista, livre-pensadora, progressista, pluralista e alteritária. A expressão “espiritismo laico” é tão imprópria como “espiritismo cristão” ou “espiritismo religioso”, mas permite identificar as posturas decorrentes, na prática espírita, de uma ou de outra posição. Queiramos ou não, é forçoso admitir que os espíritas se agrupam por preferências e particularidades formando segmentos ou vertentes, tais como, religiosos ou evangélicos ou cristãos, laicos ou não religiosos, roustainguistas, ubaldistas, ramatizistas, armondistas, apometristas, chiquistas, divaldistas, etc.

O espiritismo laico e livre-pensador contrapõe-se ao modelo dominante de espiritismo religioso, cristão e/ou evangélico. Enquanto o espiritismo religioso apregoa a tríade ciência-filosofia-religião, os laicos preferem ciência-filosofia-moral, embora admitam que Kardec nunca propôs essa tripartição. Kardec classificava o espiritismo como ciência filosófica de consequências morais. A definição de espiritismo dada por Kardec na Introdução do livro “O que é o Espiritismo” expressava essa condição epistemológica.

terça-feira, 10 de novembro de 2020

Necropolítica, Psicanálise e Espiritismo

               

        


                                        Por Lindemberg Castro

 

A pandemia causada pelo novo coronavírus escancarou ainda mais diversas contradições a partir do mundo patologicamente considerado “normal”, no qual, mesmo agonizando em inúmeras desigualdades sociais, estávamos “acostumados” a viver (ou sobreviver). Com a ideia de um “novo normal”, que para muitos parece uma realidade alternativa já instalada, vemos que o tal “novo normal” é ainda mais cínico em seus discursos, justificando as desigualdades sociais de toda ordem, movimentando vidas humanas como peças de uma engrenagem (o que surpreenderia até mesmo Foucault), e banalizando a vida, reificando o ser humano (exatamente como nos previu George Lukács). No processo de reificação a partir das atividades capitalistas e produtivas, o ser humano passa a ser identificado cada vez mais como objeto inanimado e seu valor está diretamente relacionado com uma medida quantitativa dentro da produção de objetos ou mercadorias circulantes, perdendo a sua autonomia, a sua autoconsciência e a consciência da realidade que o cerca.

A Necropolítica nunca esteve tão fortalecida, como em nossos tempos atuais! Passamos de uma normose da qual nos queixávamos pela falta de tempo, pela baixa qualidade de vida ou pelo excesso de trabalho, para uma normose amplamente difundida, aceita e justificada pelos discursos neoliberais, discursos de ódio, notícias falsas, e relativização da vida humana possivelmente vitimada em plena pandemia, mas não necessariamente uma vida chorável ao ser perdida, como nos lembra Judith Butler (dentro da necropolítica, nem todas as vidas perdidas são choráveis). O mal-estar da civilização atingiu patamares ainda maiores, que surpreenderiam até mesmo Freud, devido ao esforço contínuo do ser humano em normatizar todos os instintos de morte a que nos alerta Herculano Pires em “Educação para a Morte” (2016).

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

Espiritismo, Saúde Mental e Direitos Humanos

 



Texto do Eixo de Pesquisa:
Espiritismo, Saúde Mental e Direitos Humanos.

Produção:  Claudia Rejane Brandão da Silva, Lindemberg Jackson Sousa de Castro, Tânia Maria Diôgo do Nascimento, Vânia Lúcia Rodrigues do Carmo


1.0 INTRODUÇÃO

Atualmente, os contextos que envolvem a Saúde Mental, tem merecido cada vez mais atenção, na sociedade em geral, pois cresce a demanda por formações/cursos/palestras/orientações que englobem prevenção aos diversos tipos de adoecimento psíquico, bem como os protocolos de atendimento e manejo básico de casos mais graves como a ocorrência da depressão e do suicídio. É importante ressaltarmos que, antes mesmo da pandemia pelo novo Coronavírus, já vivenciávamos outra, a de suicídio, mas, devido aos tabus sociais no trato com as temáticas da saúde mental (inclusive no meio espírita) e à falta de políticas públicas adequadas ao atendimento e manejo da população em adoecimento psíquico, essa situação é amplamente invisibilizada ou tratada apenas no âmbito moralista do religiosismo.

terça-feira, 18 de agosto de 2020

Carta do Editor - 5º Editorial.

 

Eu só queria uma boneca...


O julgamento dos homens, que usam de preconceitos para auferir a dignidade de uma criança, uma menina. A mesma balança com que aferem as mulheres na sociedade, são cravados até a alma de machismos e sexismos, com o agravante de possuírem a consciência entorpecida pela religião, o ópio da sociedade dos “homens de bem”, deliberam e vociferam atados aos seus ódios divinos, assassina, assassina, assassina.

Usam da violência, e dizem desejar a paz, mas, são incapazes de sensibilizarem-se pela dor de outras pessoas, dizem que se valem do amor de um preso político, que foi julgado, aviltado e morto, por outros tantos déspotas, que vociferavam tal qual fizeram com esta inocente criança: Barrabás, Barrabás, Barrabás...

quarta-feira, 24 de junho de 2020

O espiritismo não é apolítico


Texto do Eixo de Pesquisa: Espiritismo, 

Políticas e Promoção Social

Produção: Márcio Alexandre

Uma questão está acalorando as conversas e até as prédicas nas casas espíritas do Brasil nos últimos anos: a política nacional. Em tempos de polarização desse cenário, o movimento não deixou de ser influenciado por esse momento que, vez ou outra, eleva ao ringue das discussões adeptos da causa kardeciana. Por que será que o exercício da política é ainda visto por muitos como algo malsão? O que tem de errado na política para que esta seja taxada como algo pernicioso no meio? Seria o espírita um indivíduo superior na escala dos encarnados e que por isso, inalcançável pelos problemas sociais para não ter que se (pre)ocupar com eles? Será que o adepto da doutrina dos Imortais não pode abrir a guarda no trato de tais assuntos sem se enlamear com sua suposta “sujeira”? Ou o espírita é um ser de dupla vida social: uma pura, dentro da casa religiosa e outra, devassa, fora dela?

Não há colônias espirituais, segundo a codificação

Muito se trata do que se passa nas chamadas “colônias” espirituais, no Movimento Espírita Brasileiro hegemônico, ou de como se vai para lá, ...